domingo, 8 de setembro de 2013

Horta

Sábado, 10 de Agosto de 2013, 20H30, hora local. No intervalo do jogo da Supertaça FC Porto – Guimarães, fui à cozinha da casa onde estava alojado e deparei-me, de repente, com este excesso da natureza. Raul Brandão, n`As Ilhas Desconhecidas, resume, de forma magistral, o meu espanto: “Uma coisa que exerce aqui uma verdadeira fascinação é o Pico – tão longe que a luz o trespassa, tão perto que quer entrar por todas as portas dentro.” 

Café Internacional. Praça Infante D. Henrique.

Interior do Café Internacional. Alguns desenhos expostos no café são de Almada Negreiros.

Palmeiras do jardim da Praça Infante D. Henrique.

Diz-se que “Quem for à Horta e não pintar na muralha, vai ter azar!” Uma superstição que mina a confiança dos mais cépticos, pois há várias histórias de embarcações desaparecidas no mar que não deixaram registo nos muros da doca. Pinturas na Marina da Horta.

Marina da Horta e Pico vistos do jardim da Praça Infante D. Henrique.

Rua Tenente Valadim, onde se localiza o Café Sport, mais conhecido por “Peter”.

“Cerca de 70% da superfície da Terra é coberta por água tónica, o resto é gin!”. É este o lema de vida do mais famoso ponto de encontro do Atlântico Norte, o Café Sport. Foi fundado em 1918, por Henrique Azevedo, avô do actual proprietário, José Henrique Azevedo (JHA). Durante a IIª Guerra Mundial, um oficial inglês, achando o pai de JHA, José Azevedo, muito parecido com o seu filho, decidiu chamá-lo de “Peter”, para se sentir mais próximo do seu filho, que tinha ficado em Inglaterra. A coisa pegou de tal forma que acabou por suplantar o seu nome de baptismo. O Peter Café Sport acolhe, há quase cem anos, pescadores, baleeiros, marinheiros, navegadores e turistas, tornando-se um local de apoio, como bar, restaurante, posto de informações, correio, casa de câmbios, delegação meteorológica e, com tudo isto, um símbolo da amizade entre os povos. Hoje, alberga no 2º andar, uma das melhores colecções do mundo de Srimchaw (arte de gravar os dentes e ossos de cachalote) e, ao lado do café, existe uma moderna empresa dedicada à prática de variadas actividades marítimas. (www.petercafesport.com

Interior do Café Sport. Momento Mini-Super Bock.

No dia 15 de Fevereiro de 1986, entre as 12H00 e as 16H00, aconteceu a maior tempestade do século XX nos Açores, em que o vento atingiu a velocidade de 250 km/h. José Henrique Azevedo (JHA) fez fotografias durante e após a tempestade. As ondas atingiram alturas entre 15 e 20 metros e a rebentação chegou a atingir 60 metros. Dois anos depois, querendo mostrar o acontecimento com mais facilidade aos iatistas, JHA passou duas fotografias de diapositivo a papel. Descobriu então que, no momento em que tinha tirado uma delas, se tinha formado, na rebentação da onda, uma figura humana (cabelo, olhos, nariz, boca e barba), dando-lhe o nome de “Neptuno na Horta”. (Nota: Neptuno - Deus Romano do mar, inspirado no Deus Grego Posídon). Postal digitalizado. Foto: JHA, 15.02.1986.

Casa-Museu de Manuel de Arriaga (Horta, 1840 – Lisboa, 1917), primeiro Presidente da República eleito. Exerceu o seu mandato entre 24 de Agosto de 1911 e 26 de Maio de 1915. Está sepultado no Panteão Nacional. No museu, podemos seguir a sua biografia política, encontrar alguns objectos pessoais e conhecer o seu ideário republicano. 

Numa pequena sala, assisti a um interessante filme - instalação do realizador/cantor Zeca Medeiros, intitulado “Arriaga, o Republicano”, que dramatiza a vida de Manuel Arriaga. A honradez, o estilo de vida recatado e o trabalho ao serviço da Pátria fariam corar de vergonha (caso ainda existisse alguma…) a maior parte da fauna política actual. A nomeação de Pimenta de Castro, um “erro de casting” para os republicanos, levaria ao seu fim político. Foi mais uma vítima da enorme instabilidade política da 1ª República. Interior da Casa-Museu Manuel de Arriaga. 

Junto ao Teatro Fayalense, no bairro da Conceição, encontra-se uma das muitas casas da Horta de influência estrangeira que são testemunho das vivências cosmopolitas da cidade: no século XIX, devido à presença dos Dabney (ver parte IV – Porto Pim); no século XX, graças à instalação de diversas companhias telegráficas inglesas, alemãs e norte-americanas e à escala dos hidroaviões que atravessavam o Atlântico. Na actualidade, muitos destes edifícios pertencem aos serviços administrativos da Região Autónoma dos Açores.