sábado, 30 de setembro de 2017

Notas sobre uma viagem a Israel e à Palestina

1. Em Junho de 2016, revisitei o Buçaco. O local é muito conhecido devido ao belíssimo Grande Hotel, erguido no final do século XIX, a partir do antigo convento dos monges carmelitas do século XVII. O edifício fazia parte de um complexo arquitectónico de habitação, ao qual se encontra associado um Sacro monte. A leitura do livro Buçaco, O Deserto das Carmelitas Descalços, de Paulo Varela Gomes, ajudou-me a compreender o significado artístico e religioso do conjunto monumental (em síntese, uma representação de Jerusalém), e despertou em mim, enquanto caminhava na mata e imaginava os monges em contemplação, o desejo de ir a Israel.
2. Entre o desejo e a partida, havia factores a considerar que podiam por em causa a realização da viagem, devido à conflituosidade ostensiva ou latente no Médio Oriente: os efeitos laterais da guerra da Síria (Israel é um interveniente discreto, mas atento à influência iraniana na vizinhança); o apoio declarado da actual administração americana à expansão dos colonatos (em contra-ciclo com Obama); a comemoração do 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias (que conduziu à ocupação de Jerusalém Oriental, da Cisjordânia, dos Montes Golã, de Gaza e do Sinai, entretanto devolvido ao Egipto, em 1981); assassinatos/retaliações ou crises mais prolongadas (como a do Monte do Templo/Nobre Santuário, que colocou Jerusalém sob tensão durante a segunda quinzena de Julho, à qual se juntou a crise diplomática com a Jordânia); ou simplesmente, o perigo de uma frase ou acção política proveniente da particular sapiência do Presidente dos EUA, que inflamasse os ânimos na região (recorde-se a promessa eleitoral de mudar a Embaixada para Jerusalém). Nos últimos três meses, consultei diariamente dois jornais israelitas, o Haaretz e o The Jerusalem Post, e uma agência noticiosa palestiniana, a Maan News Agency, para estar a par do clima político local e regional e não ser apanhado no meio de uma terceira intifada.
3. Quis afastar-me dos problemas no terreno, mas era inevitável que, ao viajar de forma livre e independente, o conflito israelo-palestiniano se cruzasse comigo. Tudo começa e termina no apertado controlo de segurança no aeroporto Ben Gurion e sente-se, no dia-a-dia, na presença maciça de soldados em pontos críticos na cidade velha de Jerusalém, nos checkpoints à entrada/saída da Palestina, nos controlos de identidade/detectores de metais em espaços públicos. Além disso, é muito comum encontrar civis armados, que passeiam metralhadoras ao ombro como quem leva um saco tiracolo. Vi mais armas em Israel do que em toda a minha vida. Não se pense, porém, que os conflitos estão longe de se circunscreverem aos judeus e muçulmanos. Em menor escala, as rivalidades entre as diversas confissões cristãs estão bem presentes na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, ou na Igreja da Natividade, em Belém. Se os cristãos não se entendem entre si, que autoridade têm para proclamar o fim da violência entre judeus e muçulmanos?
4. Nem sempre os excertos arquitectónicos conduzem a desastres estéticos. A Basílica de Santa Sofia, em Istambul, não obstante a transformação em mesquita, conserva a grandiosidade que levou os bizantinos a olhar para Deus como um Ser inacessível e poderoso que reduz o homem à sua insignificância. A Mesquita de Córdova, apesar da catedral católica incrustada no centro, mantém a serenidade que fez com que os muçulmanos andaluzes imaginassem Deus como uma luz suave a percorrer um bosque de arcos em ferradura. Porém, na cidade velha de Jerusalém, os principais edifícios religiosos são palimpsestos de pedra, sem autenticidade ou unidade artística que lhes confira um sentido. Resta-lhes o carácter simbólico, o que não é pouco. Paradoxalmente, aqui reside o seu maior interesse: nem sempre a verdade histórica é mais importante do que o mito e não há nada que torne um local tão sagrado como a competição religiosa.
5. A Igreja do Santo Sepulcro é uma monstruosidade de estilos e remendos à qual não será alheia a profusão de ordens religiosas cristãs que tomam conta do edifício e que se gladiam entre si: católicos romanos, ortodoxos gregos, apostólicos arménios, ortodoxos etíopes, ortodoxos sírios e coptas egípcios. É um teatro para turista ver, entre multidões que se atropelam e padres pouco pacientes. A Mesquita de Omar ou Cúpula da Rocha é o templo mais interessante do Trio Sagrado de Jerusalém, mesmo que o seu interior esteja vedado a não muçulmanos. Integra-se na Esplanada das Mesquitas, um espaço amplo e reluzente, que assenta sobre camadas de História que nos levam até ao momento em que Abraão se preparava para sacrificar o seu filho Isaac. Por má sorte ou fatalidade, o Muro das Lamentações serve-lhe de apoio lateral e constitui a força unificadora das diferentes correntes do judaísmo. Na noite de Shabbat, a praça diante do Muro enche-se de figuras atormentadas que murmuram salmos e se prostram em movimentos contínuos, ao mesmo tempo que, ao lado, grupos dançam e cantam abraçados. Rigidez e alegria, diferentes aproximações a Deus, comuns às outras religiões abraâmicas. Aqui reside o epicentro do conflito sobre a soberania de Jerusalém: para os judeus, o Muro evoca o Templo construído por Salomão, que estaria no local onde agora se encontra a Cúpula da Rocha, que os muçulmanos creem ter sido o último lugar pisado por Maomé, na sua viagem nocturna, antes da ascensão aos céus. Como poderá Deus responder a desejos contraditórios se os homens a querem em exclusivo?
6. Jerusalém é a casa do Deus único, capital para dois povos, sagrada para três religiões e a única cidade com dupla existência: terrena e celestial. É das alturas que guardo as melhores recordações. No miradouro Rehavam, no Monte das Oliveiras, avista-se um magnífico panorama da cidade velha, com a Cúpula Dourada da Mesquita de Omar ao centro, e do mais antigo cemitério em funcionamento, um mausoléu a céu aberto com mais de cento e cinquenta mil túmulos. Para os crentes, Jerusalém é o palco do fim do mundo e muitos milhares quiseram ser sepultados nas colinas diante da Porta Dourada, à espera do Messias, para estarem na linha da frente numa eventual ressurreição, no dia do Juízo Final. Mas, se eu tivesse que escolher apenas um cenário, ficaria com o do terraço do Hospício Austríaco, dentro da cidade velha. Dali, Jerusalém é um emaranhado de telhados, cúpulas, minaretes, torres e campanários. Tal como a terra, o céu é disputado por todos. O burburinho que percorre continuamente as ruas estreitas e sinuosas parece perde-se no éter. Por momentos, sob um luminoso azul celeste, Jerusalém faz jus ao seu nome hebraico: Yeroushalayim, a cidade da paz.
7. O Yad Vashem (“um memorial e um nome”) é um vasto campo museológico que recorda os seis milhões de judeus que morreram durante a II Guerra Mundial e honra os “Justos Entre as Nações” que contribuíram para salvar vidas humanas. O edifício principal, projectado por Moshe Safdie, tem a forma de um prisma triangular (a parte superior da Estrela de David), que representa o aniquilamento de metade da população judaica. As nove galerias contam a Shoah (Holocausto), desde a ascensão do Terceiro Reich até ao fim da guerra. Muitos documentos e objectos estão expostos em todas as salas, acompanhados de vídeos com depoimentos. À medida que se segue pelo corredor, o comportamento dos nazis em relação aos judeus vai sendo mostrado: como foram perseguidos, como eram transportados, como funcionavam os campos de concentração. A organização alemã e a sua febre documental são a desgraça daqueles que negam o Holocausto. A última galeria, “A Sala dos Nomes”, a mais comovente de todas, tem um cone pendurado no tecto, forrado, no interior, com fotos de vítimas, que desce sobre um poço com pedras, que lembra todos os que morreram no anonimato. À sua volta, a parede é uma prateleira com uma infinidade de livros que guardam “Páginas de Testemunho”, fichas com nomes e dados pessoais daqueles que perderam a vida, mas cuja identidade foi possível resgatar do esquecimento. A visita termina diante um triângulo vazado, para que se possam admirar as colinas de Jerusalém. Depois da escuridão, a luz. Será possível retirar algum ensinamento desta tragédia e evitar que a História se repita? Não sei... O crescimento dos partidos de extrema-direita, na Europa, e as recentes manifestações em Charlottesville, na Virgínia, constituem sinais preocupantes e parecem mostrar que, mesmo em sociedades desenvolvidas, não há seguros que nos garantam que a História não se repetirá.
8. No Museu de Israel podemos conhecer a História e as diferentes expressões da cultura judaica. O país é um caleidoscópio humano, com gentes provenientes desde o Norte de África até à Ásia Central, da Europa até à Abissínia. Tal como nós, os judeus tem uma ligação histórica com as terras do Preste João. Os falashas (judeus da Etiópia) são descendentes de uma tribo perdida que, segundo o Livro Kebra Negast (“Glória de Reis”), acompanhou Menelik (filho da Rainha de Sabá e do Rei Salomão) de regresso à Etiópia, com a Arca da Aliança (os ortodoxos etíopes acreditam que está depositada na Igreja de Santa Maria de Sião, em Aksum, no norte do país). Os israelitas não dão crédito a esta “História”. Contudo, em 1985 e 1991, montaram duas operações que permitiram retirar mais de vinte mil falashas em redor do Lago Tana, a mais de dois mil metros de altitude, onde ainda se fazem embarcações com papiro. Três horas de avião e três mil anos depois, os falashas aterraram na modernidade e entraram no delicado jogo demográfico. São eles que asseguram a segurança da maioria dos edifícios.
9. Na central de camionagem, os Haredi (“Tementes a Deus”, ultra-ortodoxos) leem a Tora, enquanto adolescentes ouvem música nos auriculares. O mercado Mahane Yehuda transborda de gente e de cor; não muito longe, o bairro Mea Shearim (“Cem Portas”, onde vivem os ultra-ortodoxos) é um mundo à parte a preto e branco. Na cidade velha, personagens bíblicos, com longas túnicas e barbas espessas, figurantes de uma grande produção com o Charlton Heston, cruzam-se com seculares saídos de um filme do Woody Allen. Na rua Jaffa, mulheres com vestidos elegantes passeiam ao lado de senhoras de peruca, com indumentária das suas bisavós, cercadas por um rancho de filhos. Num bazar, as minúcias dos ofícios ancestrais convivem com a tecnologia móvel mais recente. Num Shabbat, as necessidades do mundo actual driblam os interditos religiosos. Caminhar pelas ruas ou vielas de Jerusalém é viajar num curto-circuito temporal, entre aqueles que vivem o presente como se estivessem cristalizados no passado e aqueles que vivem no presente a pensar no futuro. A pontuar a paisagem urbana, soldados de metralhadora na mão. Sinceramente, não sei o que me causa mais desconforto: um atentado ocasional ou um jovem tenso com o dedo encostado ao gatilho. Na Cidade Santa, o Diabo está sempre à espreita.
10. A solução mais justa para Jerusalém seria um estatuto internacional (ONU, 1947), aberta a todos os credos que nela se sintam representados, tal como a retratou Marc Chagall nos frescos da Sinagoga do Hospital Universitário Hadassah, em Ein Karem, mas desconfio que ninguém iria aceitar. Nem estou à espera que isso algum dia aconteça. À excepção de um curto espaço de tempo (1229-1244), em que houve um acordo de soberania partilhada entre o Sacro Imperador Frederico II e o Sultão do Egipto Al-Kamil (com opositores em ambos os lados...), ao longo da História, judeus, cristãos e muçulmanos nunca abdicaram do poder absoluto que tiveram ou têm sobre Jerusalém. A vitória abriu as portas da cidade, a derrota obrigou à partida. Quando muito, negociou-se o acesso aos lugares santos. Sugerir esta proposta numa conversa informal corre-se o risco de ser crucificado pela Realpolitik. É a força bruta da realidade. Ninguém precisa de me lembrar que os milagres são mais fáceis de pintar do que concretizar. Contudo, há pequenos vínculos observáveis, que não escapam a quem está de passagem, que poderiam servir de ponto de partida numa hipotética reconciliação. Refiro-me a práticas sociais, como encontros/diálogos entre judeus e muçulmanos nos transportes, nos mercados, na rua ou nos parques infantis, onde as crianças parecem agir com menos pruridos do que os adultos. Podem não ser frequentes, mas eles existem. Por vezes, são surpreendentes: em Mea Shearim, conheci uma dupla masculina palestiniana que trabalhava com os ultra-ortodoxos. A convivência pacífica é possível, mesmo no mais estranho de todos os lugares.
11. Foi no Mosteiro Ortodoxo Grego Mar Saba, no Deserto da Judeia, na Palestina, que tive o contacto humano mais enriquecedor. Como não há transportes públicos para lá chegar, tive que negociar arduamente com um taxista em Belém. Pelo caminho, Yusuf mostrou-me o checkpoint para Hebron, graffitis de Banksy, a bandeira palestiniana que se ergue no horizonte à saída de Beit Sahour, um colonato israelita espetado num monte. Aos poucos, o pequeno aglomerado urbano deu lugar a casebres dispersos habitados por beduínos. Por fim, o deserto. Montes rochosos ondulados onde nada floresce. Após trinta minutos de viagem, a estrada que serpenteia a paisagem chegou ao fim. Era quase meio-dia e estavam quarenta graus. O relógio começou a contar. Tinha uma hora para visitar o mosteiro. Bati à porta e aguardei. A vida monástica exige paciência... Rodeado por muros altos e espessos, Mar Saba estende-se numa ravina do Vale de Cédron, onde vários patamares distribuem os diversos espaços: igrejas, capelas, celas, salas, armazéns, cisternas, escadarias. Do exterior, parece um labirinto que está prestes a cair num precipício. As mulheres estão proibidas de entrar. Há uma torre onde podem ter uma panorâmica global. Para elas, a visita termina antes de começar. A porta abriu-se e fui recebido por Ephraim. Mostrou-me a cúpula hexagonal que guardava os restos mortais de S. Sabas, o fundador da Lavra, em 483, antes do seu corpo incorrupto ter sido levado para Veneza pelos cruzados. O Papa Paulo VI devolveu-o em 1965, e, actualmente, encontra-se numa urna de vidro na magnífica igreja principal, decorada com pinturas murais, representando episódios do Antigo e Novo Testamentos. A escuridão interior, em contraste com a excessiva iluminação externa, convida ao silêncio e à concentração. Ephraim é de Salónica e está em reclusão há dezassete anos. Aparenta meia-idade, veste camelauco, batina e sapatos pretos, tem barba desgrenhada, rabo-de-cavalo discreto, cruz grega ao peito. Segundo ele, o edifício e os seus ocupantes estão abençoados e protegidos por Deus. Ao longo dos séculos, resistiram a pilhagens, invasões, terramotos, serpentes e escorpiões. Depois da igreja, deixou-me, por momentos, num pátio interno, para observar a paisagem. Não fiquei lá muito tempo, pois tinha um Sol impiedoso em cima de mim. De regresso, aguardava-me Anastassius, também natural de Salónica, mais jovem e expansivo do que o seu companheiro. A vida no mosteiro segue os ritmos dos tempos bizantinos: levantar à meia-noite, orações, serviços religiosos, jejuns, uma refeição principal por dia, duas em dias especiais. Carne nunca, peixe em dias sagrados. Os monges vivem sem electricidade e água canalizada. Continuam a iluminar o interior com candeias de azeite e obtêm água através de um riacho que corre no fundo do vale. Alguns alimentos são produzidos por eles, outros são adquiridos nas populações vizinhas. As notícias chegam quando um membro da comunidade se desloca ao exterior ou através dos forasteiros. Anastassius não precisa de saber muito da Grécia, de Israel, da Palestina, da Síria, do Estado Islâmico. Os detalhes não lhe interessam. Basta-lhe o essencial: tragédia, sofrimento e mortes, para dar sentido às suas orações. Pouco mudou nestes últimos mil e quinhentos anos. Espírito de pobreza, simplicidade e humildade continuam a fazer parte do caminho para encontrar Deus na solidão. O mosteiro é habitado apenas por doze monges. Já foram muitos mais no passado, mas a crise de vocações também chegou à Grécia. Tiveram necessidade de acolher irmãos da Roménia, Sérvia e Rússia, outras pátrias cristãs ortodoxas. Se algum dia os gregos deixarem de ser maioria, a sua língua nunca deixará de ser falada ali dentro, pois ela tem um laço inquebrável com a fé. O raciocínio de Anastassius terminou com uma espécie de sentença bíblica, iniciada num tom orgulhoso e concluída numa intensidade a roçar a raiva: “O grego é a língua do Cristianismo, da Filosofia e da Teologia. Temos as palavras necessárias para exprimir com exactidão o que queremos dizer, definir conceitos e evitar heresias. Por mais que queiram castigar a Grécia, a sua herança civilizacional nunca desaparecerá!”. Quem seria o destinatário ou os destinatários desta última frase? Quem se exprime assim pode viver como no século V, mas tem um olhar atento ao que se passa no século XXI. A visita acabou. A hora passou a correr neste local onde o tempo corre muito lentamente. Não tenho palavras para agradecer a hospitalidade nem para descrever o respeito que estes corajosos homens me merecem. Já tinha estado em muitos conventos e mosteiros, mas nenhum se traduziu em algo semelhante ao que vivi naquele dia, pelo envolvimento do lugar, pela sua longa história, pelo seu modo de vida. Se ainda existe algo de belo e puro, é entre aquelas paredes, numa escarpa desértica, que tem a sua residência.
12. A história é conhecida. Após a destruição de Jerusalém, por Tito, em 70 d.C., que conduzirá à segunda diáspora e ao nascimento do judaísmo moderno (sem Templo), alguns judeus, liderados por Elazar ben Yair, resistiram em Masada mais três anos, até que os romanos construíram uma rampa em terra batida, ainda hoje quase intacta, que lhes permitiu chegar às muralhas da cidadela. Contudo, os sitiados recusaram a rendição. Compreendendo que a resistência tinha chegado ao fim, tiraram à sorte dez entre eles que deveriam matar os companheiros antes de eles próprios se suicidarem. De acordo com o relato do historiador judaico-romano Flávio Josefo, apenas duas mulheres e cinco crianças escaparam ao massacre. Os romanos encontraram novecentos e sessenta cadáveres e víveres em quantidade, para que soubessem que não tinha sido a fome que tinha conduzido a este desfecho. Masada é um planalto rochoso que domina o Mar Morto. No cimo dos quinhentos metros de falésias abruptas, um terraço oval abriga uma extraordinária fortaleza natural, tornada inexpugnável por Herodes, o Grande, que aí mandou construir um palácio e um conjunto de estruturas de apoio. Não faltam em Israel locais arqueológicos, alguns deles alvo de intervenções e análises polémicas. Tal como a conquista do espaço, a arqueologia é um instrumento de poder, que visa criar uma identidade nacional e um estratagema para reivindicações territoriais. O jovem país precisa de provar que a sua História é antiga ao mesmo tempo que cria raízes para o futuro. Porém, em Masada, não é a posse da terra que está em causa. É algo mais. Para os judeus, o que esta dramática história ensina é que jamais serão subjugados. Antes a liberdade pela morte do que uma vida de escravidão.
13. Tel Aviv: secular, relaxada, hedonista. Fundada em 1908, recebeu nos anos trinta muitos judeus que escapavam da Alemanha Nazi, entre eles vários arquitectos, que introduziram o modelo Bauhaus, da Academia de Walter Gropius. A cidade ficou repleta de construções simples, funcionais e lineares, com tectos rectos e paredes brancas, dando a impressão de uma urbe limpa e alinhada. É possível vê-las por todo o centro de Tel Aviv, se bem que o seu estado de conservação seja desigual. O ar húmido saturado de sal é nefasto e há vários edifícios a precisar de restauro. Hoje, com meio milhão de habitantes e depois de ter absorvido o velho porto de Jaffa, mantém a elegância urbanística, em resultado do design ousado dos prédios e da extraordinária frente mediterrânica. Mais do que luz e sofisticação, é a dimensão humana que sobressai como demonstram a abertura e tolerância à diferença, o respeito aos idosos e deficientes, a defesa do meio ambiente. Dá gosto ver, num sábado de manhã, as esplanadas cheias, as ciclovias movimentadas, as famílias a preparar um piquenique, as pessoas a praticar desporto, as praias onde convivem biquínis e burquínis, tudo num ambiente descontraído, em que cada indivíduo parece estar bem consigo e com a sociedade. Pode parecer um retrato banal, mas o contraste com Jerusalém é abissal. Por último, um pormenor: há muitos cães em Tel Aviv, mas não vi sujidade no chão. Um pequeno grande sinal de civismo. Gostei de visitar Jerusalém, poderia ter ficado um mês a explorar todas as suas pedras gastas pela passagem dos homens, mas seria incapaz de lá viver. Há no ar um fervor religioso que se faz sentir em normas e comportamentos sociais que seriam incompatíveis com a minha mundividência. Em contrapartida, bastou-me uma caminhada entre Jaffa e a praia de Metzitzim para ficar rendido a Tel Aviv.
14. Quando, em 1291, os mamelucos conquistaram em definitivo o porto de S. João de Acre, actual Akko, no Norte de Israel, chegava ao fim o período dos Estados Latinos do Oriente, impulsionado pelo movimento das cruzadas. Tomada em 1104, a cidade tornou-se na principal porta de entrada de cavaleiros e peregrinos europeus e num dos mais importantes centros de comércio do mundo medieval. Desse tempo, ficou um vasto património edificado pelas ordens religiosas militares, mas, também, um outro legado talvez mais importante: os juízos de valor sobre o uso da violência e o interesse pelas suas causas. Entretanto, as cruzadas continuam a agitar o imaginário ocidental com representações românticas ou de inusitada brutalidade. Do lado oriental, vocifera-se contra a presença de neocruzados ou aparecem líderes que reclamam a herança identitária de Saladino. Como se sabe, a violência justificada pela fé religiosa não se limita ao passado. É um fenómeno contemporâneo em permanente mutação... À semelhança dos aventureiros que daqui retornavam às suas terras, terminei em Akko, simbolicamente, a minha viagem a Israel. No final da tarde, apanhei o comboio de regresso a Tel Aviv, desci a baía de Haifa e passei junto ao Monte Carmelo. Tempo para invocar a memória do Buçaco, onde um dia esta viagem começou.