1. Poucos países terão uma imagem tão negativa como o Irão. No Ocidente, fazem-se juízos sobre uma civilização tendo por base aquilo que foi mostrado na comunicação social nos últimos quarenta anos: o fanatismo religioso dos revolucionários islâmicos, a crise dos reféns na Embaixada dos EUA, a carnificina de oito anos de guerra com o Iraque, a retórica anti-ocidental nos discursos do Ayatollah Khomeini, a condenação à morte de Salman Rushdie, o retrocesso das liberdades individuais, associado, sobretudo, à condição feminina. Mais recentemente, o aumento da influência iraniana no Médio Oriente, onde trava diversas guerras por procuração, e a questão nuclear reavivaram a tensão com o Ocidente. Que país é este que convoca tanto medo?
2. O Irão tem uma longa História de 2500 anos. Valores que hoje fazem parte da nossa sensibilidade moderna, como “Liberdade” ou “Direitos Humanos”, poderão ter tido origem no século VI a.C., durante o reinado de Ciro, o fundador do Império Persa. Na raiz desta ideia estão a libertação dos judeus na Babilónia e a descoberta, em 1879, de um cilindro em argila (original no Museu Britânico, em Londres; réplica na ONU, em Nova Iorque), no qual se encontra inscrito um decreto que poderá ser interpretado como um apelo à protecção da vida, independentemente da etnia e das crenças. Ciente de que os persas eram uma minoria com poder sobre várias nações, Ciro encontrou na clemência perante os vencidos e na autonomia das sátrapas (províncias) uma nova forma de governar, impondo a ordem pela universalização da lei. Se a Grécia nos deixou a Pólis, a Pérsia estendeu o conceito de “Estado” do Mediterrâneo Oriental ao Indo. Estava criado o primeiro Império da Humanidade. Aqueménidas, Partos e Sassânidas asseguraram-no até à chegada dos árabes, em 642 d.C. Os Persas que, até então, tinham a sua religião oficial, o Zoroastrismo, adoptaram a religião dos vencedores, o Islamismo, mas na variante sofrida e esotérica: o xiismo. Após a morte de Maomé, em 632, a sua família foi afastada do poder em benefício dos companheiros do Profeta. Ali, seu genro e primo, e Hussein, o filho de Ali, que se tinha casado com uma princesa persa pertencente à família sassânida, foram assassinados e o poder passou para os sunitas. Através da fidelidade a Ali e a Hussein manifesta-se também a fidelidade à linha sassânida e ao passado persa. A permanência do xiismo assegurou-se através de uma linhagem de Imãs, que começou em Ali e terminou com Moahmmad Al-Mahdi, o décimo-segundo, que desapareceu, misteriosamente, em 874. Os seus partidários defenderam que se tinha “ocultado” e que iria reaparecer antes do Fim do Tempo. Solução inteligente para salvar o xiismo da perseguição dos sunitas, visto que os Imãs anteriores tinham sido todos assassinados. A invasão e ocupação árabe foi a primeira de uma larga série, que incluiu turcos e mongóis. No início do século XVI, deu-se o “Renascimento Persa” com os Safávidas, que elevaram o xiismo à condição de religião oficial. O que fora uma ideologia de oposição transformou-se num país de oposição à dominação dos sunitas otomanos, que Portugal tentará tirar proveito ao estabelecer-se no Golfo Pérsico. A partir do final do século XIX, a Pérsia foi alvo da cobiça da Inglaterra e da Rússia, devido às enormes reservas de petróleo e à sua posição geográfica e estratégica, cuja importância se mantém inalterável: pelo Estreito de Ormuz passa, diariamente, 20% do petróleo mundial. Em 1953, em plena Guerra Fria, a CIA organizou o golpe de Estado que levou à queda do Primeiro-Ministro Mossadegh, que tinha nacionalizado a indústria petrolífera e expulso os ingleses. O Xá Reza Pahlevi foi reconduzido ao poder e os direitos comerciais do petróleo foram atribuídos, em grande parte, a empresas britânicas e americanas. Com o dinheiro do petróleo, o Xá iniciou a “Revolução Branca”, o processo de modernização do país que levou à reforma agrária e à emancipação da mulher, mas, também, à ostentação da realeza e à repressão da oposição, através da polícia política, a Savak. No início de 1979, deu-se a mudança no poder: o Xá abandonou o país e Khomeini regressou triunfante ao Irão, para proclamar a Revolução Islâmica. Tendo vivido a minha adolescência e entrado na idade adulta no final do século passado, cresci igualmente formatado com essa imagem revolucionária iraniana. Na transição dos anos oitenta para os noventa, com a queda do Muro de Berlim e as mudanças políticas no Leste Europeu, o Islão Político começou a substituir o Comunismo como “o inimigo” do Ocidente. Nessa época, o Irão não era apenas mais fechado do que na actualidade, mas apresentava-se como a nossa antítese: nós éramos bons e livres; eles eram maus e fanáticos. Quando comecei a estudar o Islão, a ler livros de História e a ver cinema iraniano a situação ficou complicada para o meu lado. Afinal, a coisa não era assim tão simples como era mostrada na comunicação social.
3. Teerão foi a minha porta de entrada no Irão. A área metropolitana tem 15 milhões de habitantes e estende-se nas encostas da cordilheira Alborz. No Verão, não há neve, mas, durante o Inverno pode-se esquiar nas montanhas que cercam a zona Norte. Largas avenidas cruzam a cidade de uma ponta a outra e desdobram-se numa teia infinita de ruas e passeios, permanentemente cheias de trânsito, multidões e poluição. Felizmente, existe uma rede de metro eficiente, que nos permite chegar a todo o lado, com relativa rapidez e conforto. Não é uma cidade encantadora, mas tem lugares surpreendentes, como o Palácio Golestan (onde foram coroados o Xá Reza Pahlevi e a Imperatriz Farah Diba), o Museu das Jóias (alberga, num bunker do Banco Nacional, a maior colecção do mundo), o Grande Bazar (um labirinto de dez quilómetros de lojas) e a Casa dos Artistas Iranianos (um espaço moderno de convívio, exposição e criatividade). No plano político internacional, Teerão foi palco de vários acontecimentos que marcaram o século XX: em 1943, a Conferência em que Estaline, Churchill e Rosevelt começaram a preparar os destinos do Mundo no pós-guerra; em 1953, a “Operação TPAjax”, o primeiro Golpe de Estado organizado pela CIA que destituiu um governo estrangeiro; e, em 1979, a Revolução Islâmica, que mudaria o jogo de alianças no Médio Oriente. Em 4 de Novembro desse ano, a Embaixada dos EUA foi ocupada por estudantes radicais que mantiveram sequestrados 52 diplomatas, durante 444 dias. O Xá encontrava-se nos EUA a ser tratado a um cancro e os estudantes exigiam a sua extradição para que fosse julgado. A crise levou ao corte de relações entre os dois países e à perda do segundo mandato de Jimmy Carter para Ronald Regan. Os reféns regressaram a casa após a sua tomada de posse, o que indicia que terá havido negociação para que a libertação ocorresse num momento oportuno… No presente, a Embaixada mantém-se à guarda da Associação Estudantil Basij. Parte dos muros exteriores estão pintados com murais de propaganda anti-americana, enquanto o edifício está transformado no Museu Anti-Arrogância (Khomeini chamava-lhe o “Covil de Espionagem”). No interior, podemos observar figuras de cera que têm conversas top secret na caixa de vidro; telex e computadores antiquados; slogans e quadros anti-imperialistas; fotografias de época; salas de encriptação de informação, destruição de papéis e falsificação de documentos. Quem viu o filme Argo (Ben Affleck, 2012) estará familiarizado com os espaços e esses dias atribulados. A visita terminou numa improvisada sala de imprensa, onde, numa das paredes, um grupo de estudantes trepa os muros da embaixada, numa pose que remete para a célebre fotografia de Joe Rosenthal Raising the Flag on Iwo Jima. Ali, assisti a duas curtas-metragens que contam a versão iraniana dos acontecimentos. Antes de abandonar a sala, fui desafiado por um estudante, com um perfil cinematográfico de Professor Moriarty, a dar a minha opinião sobre aquilo que vi. E agora?... Ensaiei uma resposta com “uma no cravo e outra na ferradura”, temperada com “uma dose ponderada de lirismo”: compreendo a vossa saturação em relação à ingerência dos EUA; entendam que “a crise dos reféns” foi uma humilhação intolerável para os americanos; e espero que, ultrapassados os ressentimentos do passado, os dois países possam restabelecer relações diplomáticas no futuro. Hum… Após uns longos segundos de silêncio, em que eu não percebi se ia receber o Prémio Nobel da Paz ou ser martirizado, o “Professor” aprovou as minhas observações e até mostrou um tímido interesse no desanuviamento da tensão entre os dois países (não sei se por cortesia ou se ficou em “transe temporário” com o meu final “cor-de-rosa”…). Com a chegada de um outro estudante, a conversa rapidamente mudou de rumo e desprendeu-se das palavras medidas para uma animada cavaqueira sobre Carlos Queirós e José Saramago. Além do estado do tempo, o futebol e a literatura também podem ser úteis para resolver “embaraços diplomáticos”.
4. 22 de Setembro de 1980. Podia ser um dia igual aos outros na cidade fronteiriça de Khorramshahr. As crianças brincavam na rua, uma mulher estendia roupa no terraço, um homem tomava conta do churrasco, um outro conversada com um mullah. Podia ter sido, mas não foi. De repente, a calmaria é interrompida pelo som dos aviões iraquianos que cruzam a cidade a baixa altitude e despejam uma série de bombas. Quando o fumo começou a dissipar, tudo aquilo que era deixou de ser. Destruição, mortos, gritos e desespero passaram a fazer parte do cenário da rua. Já todos vimos imagens de bombardeamentos no cinema ou na televisão, mas, agora estamos um pouco mais próximos da realidade. Por momentos, os nossos sentidos estão juntos da população, como se estivéssemos lá, naquele dia e naquela rua. O holograma do primeiro dia da Guerra Irão-Iraque é um dos momentos mais impressionantes do Museu da Revolução Islâmica e da Guerra Santa, porque transmite ao visitante os sons e as imagens mais cruéis da guerra. O museu começa com a queda do Xá, segue com o regresso de Khomeini a Teerão e a sua tomada de poder (como era de esperar, “passa por cima” da oposição laica ao Xá que foi “cilindrada” pela revolução...) e dedica a maior parte do espaço à guerra traumática com o vizinho Iraque que, entre 1980-88, provocou 1 milhão de mortos. O acervo é diversificado e mostra o conflito nas suas diversas dimensões. Há uma reconstituição da destruição de Khorramshahr, o tipo de armamento utilizado, os efeitos das armas químicas, a cobertura do conflito na imprensa internacional, as difíceis condições ambientais, a situação dos prisioneiros de guerra, figuras de cera da elite militar e religiosa que faleceram e uma “visão surreal” do Paraíso que esperava os mártires. Robert Fisk, em A Grande Guerra pela Civilização, fez um relato lancinante dos soldados gaseados que regressam a Teerão num vagão de comboio e dos adolescentes que foram usados para explodir as minas e “limpar” o terreno para os tanques. Neste caminho suicida, levavam uma chave ao pescoço, para “abrir as portas do Paraíso”, e uma manta às costas, para facilitar a recolha dos cadáveres despedaçados. Quase no final, passei por uma fotografia de Saddam Hussein e assisti aos insultos que lhe foram dirigidos por um grupo de alunos. À excepção deste momento de exorcismo colectivo, pareceram-me pouco concentrados no esforço do professor em contextualizar aquilo que viam e gastavam mais energia em provocações e nas selfies. Há comportamentos juvenis que não mudam, independentemente do país.
5. Uma das imagens públicas mais fortes do Irão é a presença do chador, o manto preto que cobre o corpo feminino e deixa apenas o rosto a descoberto. Khomeini impôs a sua obrigatoriedade e o seu uso correto era fiscalizado pela polícia dos costumes. A novela gráfica Persépolis, de Marianne Satrapi (que daria lugar ao filme homónimo de Marianne Satrapi e Vincent Paronnaud, 2007), abre precisamente com as mudanças na indumentária quando a autora, ainda criança, andava na escola. Na adolescência, a sua irreverência é posta à prova perante as restrições impostas pelos professores ou quando é insultada nas ruas pelas “guardiãs da revolução”, por usar roupas ou símbolos Ocidentais. Chega à idade adulta numa sociedade esquizofrénica em que havia um grande contraste entre o comportamento público e privado. Para manter alguma sanidade mental, participa em festas às escondidas e contesta o regime até ao limite. Azar Nafisi, professora de Literatura Inglesa e autora de Ler Lolita em Teerão, relata, igualmente, várias proibições que condicionaram a vida das mulheres no espaço público, sobretudo no período pós-revolucionário. As mais comuns eram o cabelo solto, o uso de maquilhagem e a limitação das companhias masculinas aos maridos, pais e irmãos. Há também humilhação: testes de virgindade perante desconhecidos ou episódios de coacção física e psicológica. Outras vezes, conta histórias que mais parecem saídas de um filme de humor nonsense, como a interdição de comer gelados às mulheres , porque podiam “desorientar” os homens, ou a aluna que foi chamada a atenção por estar a trincar uma maçã “de forma sedutora”. Era preciso, tal como Xerazade das Mil e uma Noites, muita imaginação para as mulheres escaparem ao destino sombrio, ao permanente sentimento de culpa que a revolução as tinha condenado. Em 2018, com 60% da população jovem (num país de 80 milhões de habitantes) e a expansão das redes sociais, a condição feminina no espaço público é muito diferente do período pós-revolucionário. Parece que as autoridades abriram válvulas de escape dentro do código da indumentária feminina e são mais tolerantes perante certos comportamentos vistos, há uns anos, como indecentes. Nas áreas urbanas que visitei (Teerão, Yadz, Shiraz e Esfahan), o preto convive com cores vivas, os rostos estão maquilhados, as sobrancelhas aparecem tatuadas, os lenços destapam em diferente graduação, há unhas de gel de cores berrantes e sapatilhas de cores metalizadas. Mostrar afecto em público deixou de ser tabu: não vi beijos, mas há muitos casais que passeiam de mão dada. Comer gelados é uma das atividades mais populares, que congrega rapazes e raparigas para momentos de boa disposição e não parece “desorientar” ninguém nas quentes noites iranianas...
6. O som hipnótico da chamada para o Maghrib (oração após o pôr-do-Sol) antecedeu a partida para Yadz, na Estação de camionagem Jonub, na zona sul de Teerão. Mesmo um não-crente não fica indiferente à beleza comovedora do apelo do muezzin. Um breve momento de puro deleite para o viajante, que não altera a azáfama do átrio, com o seu ritmo frenético de passageiros em busca de transporte e provisões. O percurso nocturno do autocarro seguiu em direcção a Qom, a segunda cidade mais sagrada do Irão e o principal centro de estudo do xiismo. À saída da capital, passámos junto ao Mausoléu de Khomeini, uma construção deveras extravagante para um líder que tinha fama de ter levado uma vida modesta. Ao nascer do Sol, chegámos a Yadz, mítico ponto de passagem da Rota da Seda, por onde andou, no século XIII, Marco Polo, nas suas deambulações orientais. No seu livro Il Milione salientou a beleza e o grande e variado comércio da cidade. Oitocentos anos depois, a urbe cresceu, mas os negócios dos tecidos e a parte antiga mantêm-se, tal como no tempo das caravanas que cruzavam a Ásia Central. O centro é constituído por ruelas estreitas e labirínticas, ladeadas de casas de palha e barro, cobertas com arcos e túneis que protegem os peões do Sol inclemente. Rodeados pelo deserto (nos terraços veem-se as dunas ao longe) e com escassos recursos, os habitantes encontraram soluções engenhosas para refrescar as casas e preservar a água, que ainda perduram nos nossos dias: bagdirs (torres de ventilação, uma espécie de ar condicionado natural), qanats (aquedutos no subsolo que evitam a evaporação da água) e ab ansar (reservatórios de água). Todo este património com dois mil anos de existência pode ser analisado no Museu da Água. Não conheço outra cidade em que haja uma tão grande harmonia entre arquitectura e ambiente, em que o homem não tenha dado tantas provas da sua arte para resolver problemas e sobreviver num meio tão duro.
7. No Centro para a Conservação de Yadz, há uma fotografia a preto e branco, tirada nos anos cinquenta do século XX, no pátio do Complexo Amir Chackmaq, em que uma multidão rodea o nakhl, o andor funerário usado na cerimónia Ashura, uma procissão em que os xiitas celebram o martírio de Hussein (filho de Ali e neto de Maomé, morto por Yazid, o califa sunita, na Batalha de Kerbala, no actual Iraque, em 680). O andor, que tem duzentos anos, continua presente no pátio da mesquita, mas, já não é transportado pelos homens. Limita-se a ser coberto de negro, ao 10º dia do Muharram (calendário islâmico lunar), para representar o caixão de Hussein. A Ashura é uma experiência religiosa fundamental para a compreensão e preservação da identidade do Islão xiita, marcada pela injustiça histórica. O destino trágico de Hussein, que sabe de antemão que não poderá escapar à morte, tornou-se o símbolo do voluntariado para o martírio. Assim se explica a enorme quantidade de pinturas de mártires da Guerra Irão-Iraque exposta nas vias públicas, indivíduos que, não tendo tido êxito terrestre, se salvaram, seguindo o exemplo de Hussein, com “a entrada no Paraíso”... Esta é também a cidade onde vivem duas minorias religiosas que têm interesse histórico e cultural: os judeus e os zoroastras. Os primeiros remontam ao século VI a.C, ao reinado de Ciro. O monarca libertou os judeus do cativeiro da Babilónia, permitiu o seu regresso a Jerusalém e ajudou-os na reconstrução do Templo. Contudo, muito preferiram ficar e deixaram descendência até aos nossos dias. Mesmo após a independência de Israel e a Revolução Islâmica, é no Irão que permanece a maior comunidade de judeus do Médio Oriente que vive fora do Estado Hebraico. Os segundos são seguidores de Zaratrusta, a quem os gregos chamavam Zoroastro, profeta que terá vivido no ano 1200 a.C. (data controversa) e fundou a primeira religião monoteísta da humanidade. Em 1779, o orientalista francês Anquetil-Duperron traduziu os Gathas (hinos conhecidos por Avesta) que revelaram flagrantes analogias com as religiões abraâmicas que se seguiram: a luta entre o bem e o mal; a crença numa divindade omnipresente, infinita e eterna; na imortalidade da alma; no paraíso; na ressurreição; no juízo final e na vinda do Messias antes do fim do tempo. Em Yadz, há um Templo do Fogo para venerar a “Chama Eterna”, símbolo da sabedoria e da luz divina de Ahura Mazda. Como os zoroastras não podem queimar os corpos, uma vez que o fogo é sagrado, nem enterrá-los, para não contaminar a terra, antigamente, os cadáveres eram colocados nas Torres do Silêncio, onde os abutres se encarregavam do seu desaparecimento. Após o abandono desta prática nos anos sessenta, por questões sanitárias, actualmente, os mortos são envolvidos numa pasta impermeável e enterrados num cemitério nos arredores da cidade. Nem todas as tradições se perderam com a modernidade ou a islamização. A celebração do Ano Novo Persa, o Now Ruz (21 de Março, equinócio da Primavera), tem origem nas festas zoroastrianas. Inspirada no estatuto de dhimmi (“protegido”) que o Islão consagra aos “Povos do Livro”, a Constituição da República Islâmica do Irão reconhece as minorias religiosas (zoroastras, judeus e cristãos, mas não os bahai, que são perseguidos…) e consagra as suas liberdades culturais, sociais e políticas. Desde que não conspirem contra o Islão e o país, podem praticar as suas cerimónias, receber instrução religiosa e eleger representantes para o Parlamento.
8. Tive total liberdade para viajar pelo Irão e visitar tudo o que tinha planeado. O único local em que fui sujeito a limitações de movimento e de recolha de imagens (apenas pude tirar algumas fotografias discretas de telemóvel, sob supervisão) foi no Mausoléu Sayyed Mir Moahmmed (um dos irmãos do oitavo imã, Ali al-Reza), que se localiza em Shiraz. Os não-muçulmanos podem entrar no complexo arquitectónico apenas acompanhados por um elemento dos “assuntos internacionais” do secretariado, permanecer em algumas áreas dos pátios, mas não estão autorizados a entrar nas mesquitas nem no santuário. Trata-se de um espaço imponente e elegante, à semelhança de outros no país, mas foi o diálogo final com o meu “supervisor” que fez desta visita uma experiência única. Ao longo da viagem, tive vários contactos com locais, em que, depois de inquirido sobre a minha origem geográfica, o futebol era o desbloqueador clássico de comunicação. Lá vinham, de rajada, o Cristiano Ronaldo, o Carlos “Keirosh” e o Portugal-Irão do Mundial da Rússia. Passada a troika, na maioria das vezes, a fala não ia mais longe, porque as palavras em inglês acabavam. Num autocarro, houve mesmo um passageiro que me pediu desculpas, dizendo: “Sorry, my english is a bitch!” Não era caso para tanto... Desta vez, porém, foi diferente, porque o meu “supervisor” exprimia-se fluentemente em inglês e não tinha interesse em futebol. Terminada a visita, fui convidado para beber chá num gabinete destinado a estrangeiros masculinos. Perguntou-me por que razão tinha vindo ao Irão, que imagem os portugueses tinham do país e quais as minhas impressões de viagem até aquele momento. À medida que o tempo foi passando, a conversa estendeu-se a outros assuntos até que chegou à situação política do Irão. Criticou abertamente a corrupção no governo, a falta de emprego e de oportunidades para os jovens, a rigidez de alguns comportamentos sociais e o medo de abertura ao exterior. Sem nunca ter um discurso hostil aos EUA e a Israel, defendeu a protecção e o apoio às comunidades xiitas que vivem no Líbano, na Síria, no Iraque e no Yémen, por dever de solidariedade e para evitar que o país seja atacado no seu território: “A defesa do Irão começa no exterior das suas fronteiras”. Por último, manifestou um desejo: “Nós não somos terroristas ou selvagens, como os Taliban ou o Daesh. Somos hospitaleiros e gostamos de receber bem os estrangeiros que nos visitam. Contudo, não queremos turistas para beber ou dançar nas discotecas; queremos que nos visitem para conhecer as nossas gentes e o nosso extraordinário património.” Críticas construtivas, desejos legítimos. Se esta linha de pensamento vier um dia a ter poder, é de esperar que algo mude. Entre a repressão do Xá e a intolerância dos zelotas, há outros caminhos e muita vida. Mas, mudar não quer dizer que o país vai alterar a sua identidade ou deixar de defender os seus interesses.
9. Perdida no meio do deserto, entre pedregosas e elevadas mesetas, a primeira imagem que se retém de Persépolis são as robustas colunas que apontam o céu. Em 520 a.C., Dario, filho de Ciro, começou a construir, no meio do nada, uma cidade para celebrar o Ano Novo Persa e exibir o seu poder. À semelhança do mundo antigo, entra-se pela colossal “Porta de Todas as Nações”, por onde passavam as delegações estrangeiras que ali chegavam de todo o Império, para pagar tributo e homenagear o Imperador. Seguia-se para a “Sala das Audiências” do Palácio Apadana, que podia albergar 10 mil pessoas, formada por um quadrado com paredes de tijolos secos ao sol e um tecto de madeira sustentado por colunas de pedra com 18 metros de altura. Infelizmente, a maior parte da estrutura já não existe e não é visitável. Contudo, subsiste, na escadaria de acesso ao Palácio, constituído por três frisos de 80 metros, a representação da corte e dos povos do Império. Os escultores foram observadores cuidadosos e distinguiram os tipos raciais, as vestes, os penteados, as armas, os costumes e os presentes. Apesar das diferenças, as personagens são idênticas em tamanho e ocupam o mesmo espaço disponível, como se fossem vinhetas e tiras de banda desenhada, o que sugere uma ideia de tratamento igualitário. Aparentemente, a vida era pacífica e civilizada sob jugo dos Persas. Ao longo dos anos, o complexo de palácios foi ampliado e embelezado, até que, em 330 a.C., Alexandre o Grande, num acto pouco compreensível e mal explicado, mandou incendiar a cidade. Hoje é difícil imaginar todo esse esplendor face ao elevado grau de destruição e à erosão do tempo. Para ter uma ideia da grandiosidade de Persépolis, é preciso recorrer à realidade virtual, através de uns óculos programados para o efeito ou da consulta do projecto Persepolis 3D na net (www.persepolis3d.com).
10. A Praça do Imã, em Esfahan, justifica, por si só, uma viagem ao Irão. Do cimo da varanda do Palácio Ali Qapu, podemos admirar o sublime em toda a sua amplitude: arcadas que servem de corredores laterais ao longo de 500 metros de comprimento, por 160 metros de largura; a Sul e a Este, duas obras-primas da arquitectura islâmica, a Mesquita do Xá e a Mesquita Sheikh Lotfollah; a Norte, a entrada do Bazar Imperial, o Portal Qeysarieh; e, ao centro, um fontanário que se ilumina e começa a jorrar água ao fim do dia. À excepção deste último, que foi acrescentado pelos Pahlavis, a praça foi construída no início do século XVIII, por Abbas I, para assinalar o poder da nova capital safávida. No final da tarde, quando a luz dourada faz sobressair os detalhes decorativos nas cúpulas e nos arcos, os céus do Irão tornam-se os mais belos do mundo. Por esta altura, os habitantes de Esfahan começam a encher a praça de vida: as crianças brincam e tomam banho no fontanário, uma pequena multidão concentra-se nas suas obrigações religiosas quando chega o Maghrib, as famílias trazem o jantar para ser partilhado em cima de um tapete estendido na relva. Com o cair da noite e a aragem um pouco mais fresca, as pessoas passeiam, conversam e bebem chá, enquanto alguns jovens namoram discretamente. De manhã, está tudo limpo, como se nada tivesse passado na noite anterior. Fui testemunha do bom trato do espaço público, porque, desde o primeiro até ao último dia, passei sempre por lá, para observar o mundo em volta, a alegria de viver e a genialidade humana. Não sei se terei oportunidade de voltar, mas sei que a Praça do Imã se tornou parte mim para todo o sempre.
11. No Museu Arménio de Jolfa, em Esfahan, há um painel de madeira com embutidos de marfim, representando os apóstolos Pedro e Paulo. Na parte superior, apresenta uma inscrição em português: «Louvado seja o Santíssimo Sacramento». Vários historiadores de arte (Pedro Dias, Alexandra Curvelo, Robert Gulbenkian) dão como certa ou provável que a peça seja proveniente do antigo Convento dos Agostinhos, fundado pelos portugueses em 1602. Portugal e o Irão tem uma relação com mais de 500 anos. A primeira armada portuguesa chegou a Ormuz em 1507. A cidade foi conquistada, em 1515, por Afonso de Albuquerque, e permaneceu em poder dos portugueses até 1622. João Teles e Cunha, em Olha da Pérsia o Império Nobre – Relações entre Portugal e a Pérsia na Idade Moderna (1507-1750) refere que D. Manuel olhava para os safávidas xiitas da Pérsia como o melhor aliado para combater os turcos otomanos sunitas. Contudo, a aliança nunca se veio a concretizar. Apesar do carácter periférico do Golfo Pérsico, no quadro do Império Português do Oriente, que tinha a Índia como centro, Ormuz tinha importância estratégica (controlo de entrada no Golfo), comercial (placa giratória de diferentes rotas) e financeira (alfândega bastante lucrativa). Após a queda de Ormuz, a presença portuguesa na Pérsia continuou por via religiosa, através dos Agostinhos em Esfahan. John M. Flannery, em The mission of the portuguese augustinians to Persia and beyond (1602-1747) avalia a sua presença como um esforço ousado e imprudente, com resultados limitados: longa e perigosa viagem, terreno extremamente difícil para a missionação, martírio e conversão de frades ao Islão, fraco perfil psicológico dos monges, reduzido número de conversões ao cristianismo. Por fim, em 1747, face às dificuldades financeiras, os religiosos abandonaram o convento. Não chegaram, até ao nosso tempo, vestígios do edifício e desconhece-se, inclusive, o local onde existiu. Num museu dedicado à comunidade cristã arménia, entre descrições do genocídio levado a cabo pelos turcos, magníficas iluminuras, representações do Monte Ararat e delicados azulejos, há um painel que recorda a presença portuguesa no Golfo Pérsico.
12. “Mas afinal, o que é que nos deram os persas?”, teria perguntado John Cleese, se os Monty Python tivessem rodado uma variante de A Vida de Brian no Irão. Os seus companheiros teriam respondido: “Eles deram-nos a visão escatológica do Zoroastrismo que influenciaria as religiões abraâmicas; um Império tolerante perante os vencidos e respeitador das diferenças; uma língua que alimentou vários poetas, como Hafez ou Khayyam; o filósofo e cientista que compilou o principal manual de medicina usado na Europa até ao século XVII, Ibn Sina (Avicena); o matemático e astrónomo que introduziu os algarismos de origem indiana e o zero aos europeus, Al-Khwarizmi; uma das arquitecturas islâmicas mais admiráveis do mundo; os primeiros correios organizados; as calças; o xadrez; os tapetes; as miniaturas; e a palavra “Paraíso”. Numa versão contemporânea do filme, alguém teria publicado um tweet: “They did a great job, but we must destroy them!” A ficção de um “Grande Estado Xiita”, desde o Mediterrâneo ao Golfo Pérsico (Hezbollah no Líbano, Alauítas na Síria, Sul do Iraque e Irão) e o programa nuclear (que começou no tempo do Xá, como o próprio confirma em Resposta à História) recolocaram a tensão com o Ocidente na ordem do dia. Para tal, contribui uma mixórdia que tem como ingredientes preconceitos, ignorância e medo, e que, depois de servida às populações, é certificada como “opinião corrente”: os persas são “árabes, terroristas e fanáticos”. Alguns políticos, idiotas úteis de terceiros, também dão o seu contributo para este imaginário: ao invés do estudo e da compreensão, preferem a ameaça e o argumento da guerra. O Irão é tudo menos um país simples que possa ser retratado a preto e branco: situa-se numa encruzilhada geográfica; tem um terreno acidentado que ajudou a preservar diversos grupos étnicos; pertence a uma civilização antiga, com um longo passado imperial; preservou uma língua e tradições próprias, que sobreviveram à ocupação estrangeira; e adoptou uma variante minoritária do Islão, o xiismo, que lhe serviu de ferramenta de resistência e contestação. A complexa identidade dos iranianos, que combina elementos persas, islâmicos e ocidentais, reflete a sua História: o povo entrega-se ao martírio, vive a fé com paixão, mas também cultiva o gosto pela música, faz peregrinações aos túmulos dos poetas nacionais e tem orgulho do seu passado imperial; a revolução eliminou os excessos da cultura Ocidental, mas foi incapaz de cortar os laços com a Antiguidade, onde mergulha a identidade persa; os Ayatollhahs continuam no poder e mantêm uma retórica anti-Ocidental, mas há largos sectores da sociedade, sobretudo os jovens urbanos e as elites cosmopolitas, que tem comportamentos sociais idênticos aos nossos e anseiam por mais liberdade e abertura ao mundo. Neste momento, entre manifestações de contestação interna e pressões externas, não parece muito claro como a situação política poderá evoluir. Mal-grado as dificuldades que atravessa (sanções económicas, desemprego jovem, desvalorização da moeda e inflacção), encontrei o país funcional e seguro, e na população o mesmo desejo que poderia encontrar em qualquer lugar do planeta: a busca da felicidade possível. Por último, não poderia deixar de referir que foi no Irão que aprendi a mais completa definição de hospitalidade. De modo geral, conheci pessoas preocupadas com o meu bem-estar, generosas na oferta, voluntariosas na ajuda, honestas nos preços e gentis no trato. Portanto, nos antípodas da estampa veiculada de um país constituído por religiosos radicais, com modos trogloditas. Eles existem, mas estão muito longe de constituir um retrato social único que possa ser sinónimo de realidade. Se alguns países do mundo Ocidental tivessem populações com metade da nobreza dos iranianos, a Terra seria seguramente um lugar mais respirável.
13. Um dos livros que mais prazer me deu na preparação da viagem foi O Xá dos Xás (Edição brasileira da Companhia das Letras), de Ryszard Kapuscinsky. Trata-se de um retrato intenso de Reza Pahlevi que serve de contraponto a Resposta à História. Mas o livro não descreve apenas a biografia do último Xá. Por vezes, o jornalista polaco partilha algumas vivências no país, o que permite ao leitor inferir um pouco da alma iraniana. Um dos melhores momentos é o seguinte: “Quando quero melhorar o meu estado de espírito e passar alguns momentos agradáveis, vou para a rua Ferdusi, na qual o Sr. Ferdusi tem uma loja de tapetes persas. O Sr. Ferdusi, que passou a vida toda no meio da arte e da beleza, olha para a realidade como para um filme de segunda categoria num cinema pulguento. «Tudo é uma questão de bom gosto», ele me diz. «A coisa mais importante, meu caro senhor, é ter bom gosto. O mundo teria outro aspecto se mais pessoas tivessem pelo menos um punhadinho de bom gosto. Todos esses horrores como a mentira, a traição, o roubo e a delação têm um denominador comum: eles são praticados por pessoas sem um pingo de bom gosto.» O Sr. Ferdusi está convencido de que a nação se sobreporá a tudo e que a beleza é indestrutível. «O senhor não pode esquecer», diz ele, desenrolando um novo tapete (que ele sabe que não vou comprar, mas faz questão de que eu possa alegrar os meus olhos com sua beleza), «que aquilo que fez com que os persas permanecessem persas durante 2500 anos e que nos permitiu ser o que somos apesar de tantas guerras, invasões e ocupações, foi sempre a nossa força moral, e não a material. A nossa poesia, e não a técnica; a nossa religião, e não uma porção de fábricas. O que demos ao mundo? Demos a poesia, a miniatura e o tapete. Como o senhor pode ver, se partirmos de um ponto de vista prático, trata-se de coisas sem nenhuma utilidade concreta. Mas foi exactamente nesse ponto que nos diferenciamos do resto do mundo: nós lhe demos essa maravilhosa e inimitável inutilidade. O que demos ao mundo não tem por função tornar a vida mais fácil, mas enfeitá-la, se é que uma distinção dessas faz algum sentido. Porque para nós um tapete é uma coisa vital. O senhor estende um tapete sobre a areia de um terrível e escaldante deserto, deita-se nele e se sente como se estivesse deitado num prado verdejante. Sim, os nossos tapetes lembram campos floridos. O senhor pode ver neles flores, jardins, pequenas lagoas e fontes. No meio dos arbustos passeiam pavões. E um tapete de qualidade é um artigo duradouro, capaz de manter o seu colorido por séculos. E assim, vivendo num inóspito e monótono deserto, o senhor se sente como se estivesse num eterno jardim, que jamais perderá suas cores e seu frescor. E, se fizer um esforço, o senhor poderá imaginar que esse jardim tem cheiro, que se pode ouvir o murmúrio de um riacho e o canto dos pássaros. E então o senhor se sente feliz, como alguém que foi privilegiado e que está próximo do céu. O senhor é então um poeta.» Agora que estou em casa e a viagem se transformou numa memória no tempo, jamais deixarei de olhar para um tapete sem ter em mente toda a beleza que vi no Irão.

