domingo, 8 de setembro de 2013

Das Lajes à Piedade: costa Sul (Queimada, Arrife, Ribeiras e Calheta de Nesquim)

Campo de milho, a caminho da Ponta Queimada.

Finalmente, ao quinto dia, consigo ver o Pico cá em baixo! 
Na estrada, a caminho da Ponta Queimada.

Vigia da baleia. Ponta Queimada.

Quando o vigia avistava uma baleia com os seus binóculos, avisava as tripulações dos botes soprando um búzio ou lançando um foguete. Mais tarde, com o avanço tecnológico, passou a usar-se o rádio e o telefone. Fotografia no interior do 1º andar da Vigia da Queimada. O calendário de parede assinala a passagem de Julho, de 1958.

Actualmente, algumas vigias da baleia estão ao serviço das empresas de observação de baleias. Marcelo, eco-vigia da Empresa Espaço Talassa (www.espacotalassa.com), regista e informa a localização de cetáceos, via rádio, para as embarcações nas Lajes.

Vista de Ribeiras, a partir da Ponta do Arrife. 
Ao fundo, Calheta do Nesquim. Duas freguesias com forte tradição baleeira.

Meia traineira da pesca ao atum que, durante algum tempo, alimentou a ideia de um ribeirense de transformá-la em adega. Como acontece frequentemente, há muitos sonhos que não cabem no mundo…

Há mais coisas insólitas em Ribeiras. O Patinódromo João H. Tomé, inaugurado em 29.06.2001, pelo Presidente da CM de Lajes do Pico, Claudino José Gomes Lopes. 

Por último, nesta “colecção de excentricidades ribeirenses”, o amor de um habitante local pela sua ilha levou-o a este arranjo no seu jardim. Atenção ao detalhe do chafariz!

A existência de terra arável e a melhor protecção natural contra as intempéries facilitam o cultivo da banana em Ribeiras. 

Tal como na Póvoa de Varzim, antigos pescadores passam o tempo a jogar dominó. Clube Náutico Sta Cruz, Ribeiras.

Sociedade Filarmónica Recreio Ribeirense. Ribeiras.

Os bigodes e os chapéus de aba larga fazem-me lembrar um grupo de revolucionários mexicanos. Primeiros Tocadores da Sociedade Filarmónica Recreio Ribeirense, 6 de Janeiro de 1900. 
Fonte: ribeirensedealma.blogspot.pt (sem identificação do autor)

Casa dos Botes, Calheta de Nesquim.

Canoa baleeira Manuela Neves. À esquerda, na parede, fotografias perpetuam a memória das gentes da baleação: mestres, remadores, arpoadores, vigias, ferreiros, carpinteiros, escritores; ao fundo, à direita, troféus ganhos nas regatas (remo e vela) em que participaram antigas canoas baleeiras. Casa dos botes, Calheta de Nesquim.

Pormenor das gentes da baleação. Casa dos botes, Calheta de Nesquim.

Em baixo, à esquerda, fotografia do escritor José Dias de Melo (Calheta de Nesquim, 1925 – Ponta Delgada, 2008), autor de “Pedras Negras” (1964), que narra as aventuras do baleeiro Francisco Marroco. Casa dos Botes, Calheta de Nesquim.

Igreja do Divino Espírito Santo, Calheta de Nesquim.

Igreja de S. Sebastião, 1856. No primeiro plano, Capitão Anselmo da Silveira (1833-1912), fundador da pesca à baleia no Pico, em 28.04.1876. Calheta de Nesquim.

Casa do Alto do Canto da Rocha onde viveu Dias de Melo. Calheta de Nesquim.



















Lajes do Pico

Desmantelamento da baleia – Fonte: CM Lajes do Pico (sem data). Centro de Artes e Ciências do Mar, na antiga Fábrica da Baleia SIBIL (Sociedade Insular de Baleação Industrial Lajense).

“Nas Lajes, saía o enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido – ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacrista, a cruz e a caldeira – iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus – e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com o latim engasgado e o caixão no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristão, de abalada, até à praia. Baleia! Baleia!… Deixam um casamento ou um enterro em meio, um contrato ou uma penhora, as testemunhas e a justiça, e correm desesperados a arriar a baleia. No Cais do Pico e nas Lajes ninguém se afasta da praia. Estão sempre à espera do sinal e com o ouvido à escuta, os homens nos campos, as mulheres nos casebres. E enquanto falam, comem ou trabalham, lá no fundo remói sempre a mesma preocupação. São tão apaixonados que até este cheiro horrível, que faz náuseas e que se entranha na comida e no fato, lhes cheira sempre bem.” Raúl Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

Conclusão: os mortos podem esperar, mas as baleias não! 

Exterior da Fábrica da Baleia SIBIL. Esteve activa entre 1952-1982. 
Actual Centro de Artes e Ciências do Mar.

Vista a partir do Forte Sta Catarina. Pico encoberto…

Com o fim da caça à baleia, em 1987, ficou um valioso património de saberes, ao qual está associado um não menos importante património material, constituído por embarcações baleeiras, diversos instrumentos ligados à actividade (arpões, lanças, cordas, ganchos…), edifícios, maquinarias de apoio em terra, que deram corpo à baleação. O Museu dos Baleeiros, instalado em três antigas casas dos botes do século XIX, acolhe este espólio único em Portugal sobre o tema, explica o processo de captura do cachalote, as técnicas de construção naval, a vida do baleeiro em terra e apresenta um conjunto diversificado de objectos de arte em marfim e osso de cachalote (srimchaw). 

Na literatura universal, a valentia e a natural aptidão dos marinheiros açorianos para se adaptarem à vida dura e arriscada da caça à baleia ficou imortalizada na obra “Moby Dick”, de Herman Melville. Muitas baleeiras norte-americanas acolhiam a bordo muitos açorianos para a faina da pesca em todo o mundo. O benefício era de ambos: os americanos ficavam com gente trabalhadora e destemida; os açorianos fugiam à fome e ao serviço militar, procurando nestas campanhas ganhar algum dinheiro. Pormenor da arquitectura do Museu dos Baleeiros, de inspiração norte-americana.

Panorama “Uma viagem baleeira à volta do mundo”, por Benjamim e Caleb P. Purrigton, 1848. Reprodução da colecção da Sociedade Histórica de Old Dartmouth – Museu da Pesca da Baleia de New Bedford, Massachusetts, EUA (www.whalingmuseum.org ). Sala dos Botes, Museu dos Baleeiros.

Canoa baleeira Sta Catarina, concluída em 28.05.1928. Custo 90$00. 
Sala dos Botes, Museu dos Baleeiros.

Casario na Rua dos Baleeiros.

Vista de Lajes do Pico, a partir da Ponta de Castelete. 
Ao fundo, o Pico dava sinais que podia destapar-se…









Subida à Montanha do Pico

Finalmente, ao quarto dia, uma melhoria ligeira do estado do tempo, do lado do canal de S. Jorge, deu-me a propulsão para arriscar. Levantei-me às seis da manhã, tomei o pequeno-almoço, peguei na mochila e meti-me à estrada. Duas boleias colocaram-me às sete e quarenta na Casa da Montanha, situada a 1.230 m. Após a assinatura de um termo de responsabilidade (por partir sem guia) e a visualização de um pequeno filme sobre normas de segurança, iniciei a subida, às oito horas. Esperavam-me um trilho de quase 5 km até à mais alta montanha de Portugal e uma dura caminhada ascendente de três horas e meia… 

Cerca de duas horas e meia de caminho, com as nuvens a cercarem a montanha. Ao fundo, a baía das Lajes do Pico.

Próximo da cratera e numa fase mais dócil do trilho, após uma longa subida íngreme. Ao fundo, a baía de Lajes do Pico.

Chegada à cratera do vulcão adormecido (última erupção em 1720). Mas, a subida ainda não terminou…

A meta: Piquinho, 70 m acima da cratera. Subida com inclinação de 45º!

Após três horas e meia de caminhada, cheguei ao tecto de Portugal – 2351 m. No Piquinho, apesar do cheiro a enxofre, não tenho o Diabo à minha espera… Ao fundo, Lajes do Pico completamente rodeada por nuvens. 
Do Piquinho para a cratera. Como as nuvens cercam o vulcão, não se conseguem ver as restantes ilhas do grupo central: Faial, Graciosa, S. Jorge e Terceira. Resta-me a satisfação de ter conseguido chegar ao fim e almoçar com esta magnífica vista aérea. Cá em cima, o mundo resume-se a três cores: branco das nuvens, negro da montanha e o azul do céu.

O regresso foi muito mais penoso… Enquanto a subida é um exercício de força e músculo, a descida é um teste permanente de atenção e criatividade para escolher o melhor percurso. Com o passar do tempo, o cansaço acumula-se, os níveis de concentração diminuem, o ritmo de andamento desce e o perigo aumenta. Muitas vezes, para evitar o risco de acidente (entorse ou fractura numa queda), preferi, na parte final, descer sentado, apoiado nas mãos, em vez de ensaiar uma descida íngreme na vertical, quando o corpo já não me dava garantias de resposta em segurança. Cheguei ao fim, numa fase em que o nevoeiro e as nuvens baixas diminuíam a visibilidade, sem “travões e amortecedores”, digo articulações e tendões. Lembro-me perfeitamente do meu caminhar idiota, quando reentrei na Casa de Montanha, pouco depois das três e meia da tarde. 






Pelos caminhos da vinha: costa Oeste (Barca, Criação Velha - Madalena)

Numa ilha que não tinha portos de fácil acesso, com um chão petrificado, não havia condições para o cultivo do trigo, principal alimento introduzido nas ilhas pelos primeiros povoadores do século XV. Mas cedo se percebeu que nesse chão e dadas as condições climáticas, se poderia produzir vinho de excelente qualidade. Pensa-se que terá sido o franciscano Frei Pedro Gigante (um apelido digno da tarefa que tinha pela frente!) quem terá providenciado a vinda dos primeiros bacelos da casta Verdelho, da Sicília.
Museu do Vinho. Antigo Convento do Carmo, séculos XVII-XVIII, mansão de veraneio dos frades carmelitas sedeados na Horta. Barca, Madalena.

Museu do Vinho, sob a perspectiva do dragoeiro. Barca, Madalena.

Mirante do Museu do Vinho. Barca, Madalena.

Vista do Mirante do Museu do Vinho. Barca, Madalena.

No Museu do Vinho existe um pequeno bosque de dragoeiros, planta endémica da Macaronésia (arquipélagos do Atlântico Norte: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde). Barca, Madalena.

A Criação Velha é o lugar onde podemos encontrar as mais belas paisagens vinícolas da ilha do Pico. O homem adaptou um meio hostil, inóspito, para que a pedra desse fruto, transformando a paisagem, convertendo-a numa grandiosa obra de arte. Para proteger as vinhas do rocio do mar, das chuvas fortes e impedir a circulação do vento, o homem levantou, de forma sábia e persistente, muros de basalto a perder de vista, organizados em currais (unidades mais pequenas), canadas (alinhamento de vários currais) e jeirões (associação de várias canadas), que dão a ideia de um imenso jardim de pedra. “As vinhas têm uma forma rectangular e estão orientadas no sentido nascente/poente, permitindo um eficaz aproveitamento da incidência dos raios solares nas videiras e na pedra basáltica. (…) Durante o dia, o sol incide directamente sobre as uvas e à noite, a energia absorvida pela laje é libertada, o que significa que as uvas se encontram permanentemente sob a influência do calor.” (Fernando Oliveira, Director do Parque Natural da Ilha do Pico, Lajido da Criação Velha, http://siaram.azores.gov.pt ).
Tal como no Vale do Douro, a genialidade humana ultrapassou, por necessidade de sustento, as dificuldades que a natureza impôs, produziu uma paisagem singular de rara beleza e tirou proveito das características térmicas dos solos: o basalto, no Pico; o xisto, no Douro.
Paisagem Protegida da Cultura do Vinha - Vista a partir do Moinho do Frade. Criação Velha, Madalena.

No meio da vinha, com vista para o Faial. Criação Velha, Madalena.

No meio da vinha, com vista para a encoberta Montanha do Pico. Criação Velha, Madalena.

Solar dos Salema (privado, não visitável). Criação Velha, Madalena.

Solar dos Lima (privado, não visitável). Criação Velha, Madalena.

Janela. Criação Velha, Madalena.

Cancela. Criação Velha, Madalena.

Adega. Criação Velha, Madalena.

Rola-Pipas - rampas talhadas na pedra para facilitar o transporte das pipas até ao mar. O vinho produzido no Pico era embarcado para a Horta e daqui exportado para a América, Norte da Europa e Rússia. Conta-se que, aquando da Revolução de 1917, que pôs fim ao regime do Czar Nicolau II, foram encontradas na sua adega várias garrafas de Verdelho do Pico. Criação Velha, Madalena.