sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Cordilheira Central: do Pico do Pedro ao Pico da Esperança. Descida para Norte Grande e Fajã do Ouvidor.

Início do trilho florestal junto do Pico do Pedro, que me há de levar, 
17 km e 5 horas depois, até à Fajã do Ouvidor.

Vista da Urzelina.

Memorial do acidente da SATA, em 11 de dezembro de 1999, que vitimou 35 pessoas: 31 passageiros e 4 tripulantes. Lembro-me do acidente, pois, à época, trabalhava com uma colega micaelense que era amiga do piloto e que estava visivelmente afetada com a tragédia. Na véspera, tinha falado com um jorgense que tem um cunhado bombeiro que esteve no local, na operação de recolha dos destroços e dos restos mortais. O relato tenebroso que me foi transmitido não é transponível para aqui. Ao passar por cá, passados quinze anos, é impossível não ficar indiferente. O nosso estado de alma altera-se, da contemplação descontraída ao recolhimento circunspecto. O nevoeiro que envolve a montanha e a brisa fresca que se faz sentir acrescentam mistério e tristeza.

A caminho do encoberto Pico da Esperança, o ponto mais alto de S. Jorge, com 1053 metros. 
Veem-se, ao mesmo tempo, as costas norte, à esquerda, e sul, à direita.

Por momentos, a natureza dá uma trégua. 
O vento levantou a bruma e consegue-se ver o Pico da Esperança.

Pico do Arieiro encoberto.

Pequena lagoa muito próxima do Pico da Esperança.

Pico da Esperança, uma conquista inútil.

Pico da Esperança num dia claro: parte oriental da ilha e costas norte e sul. 

Pico do Arieiro um pouco mais descoberto.

De repente, por ação das nuvens e da disposição estendida da vertente da montanha, 
parece que o canal de S. Jorge se transformou num imenso lago.

Vista do Pico. A cordilheira é o espaço privilegiado para observar as ilhas do grupo central: na costa norte, a Terceira e a Graciosa; na costa sul, o Pico e o Faial. Tem razão Raúl Brandão quando escreveu, n`As Ilhas Desconhecidas: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente.”. Aqui temos quatro!

À medida que se desce, o Sol e a humidade regressam em força. As pernas começam a dar sinais de fraqueza e as articulações de desgaste. No caminho em direção ao Norte Grande.

Sede do Parque Natural de S. Jorge, instalado na antiga escola primária de Norte Grande.

Fajã do Ouvidor, vista do Miradouro do mesmo nome.

Nesse dia, já não tive tempo nem forças para ir até lá em baixo. Fiquei-me por aqui, a contemplar o Ouvidor e o Atlântico. No regresso, conheci um calhetense que trabalhou na Póvoa de Varzim e que me falou da Casa dos Frangos, a popular churrascaria da nacional 13. Viajar é colecionar encontros improváveis. 

Urzelina

O nome da freguesia remete para urzela, uma planta tintureira importante na economia açoriana quinhentista. Torre da antiga igreja, único vestígio que sobreviveu à erupção vulcânica de 1808.

Na Urzelina, ouvi de um engraçado habitante das Manadas (freguesia vizinha) uma das frases mais curiosas que registei nesta viagem: «Quando vou a S. Miguel, perguntam-me: “Então, quando regressas às ilhas?” Às ilhas!?... Esses tipos vivem onde? Os micaelenses têm a mania que vivem num continente!» Uma variante insular do “Lisboa é capital, o resto é paisagem”. Lavas petrificadas junto às piscinas, com vista para o Pico.

Cais da Urzelina. Ao fundo, do lado direito, o pequeno museu etnográfico, instalado no antigo armazém de laranjas e dos botes baleeiros. No cais, há um painel de azulejos onde se refere que “a Urzelina é a Sintra de S. Jorge”. A freguesia é acolhedora, está enquadrada num belo cenário natural, possui algumas casas senhoriais, mas a afirmação é claramente exagerada. Castelo de Vide, no Alto Alentejo, também reclama este título. No Cabo da Roca, concelho de Sintra, o posto de turismo vende certificados a atestar a presença no ponto mais ocidental da Europa. Em abono da verdade, esse marco geográfico pertence ao Ilhéu de Monchique, nas Lajes das Flores. Enfim, anda meio mundo a enganar outro.

Interior do museu etnográfico da Urzelina, com diversas alfaias agrícolas e objetos do quotidiano doméstico. No primeiro plano, uma carruagem que pertenceu a Francisco de Lacerda.

Fajã dos Vimes

Início do trilho da Fajã dos Vimes na Serra do Topo, num caminho ladeado por hortênsias.

 A bruma invade a serra.

Início da descida da encosta. A partir daqui, segue-se montanha abaixo, por entre vegetação densa de musgos e fetos, numa escadaria tosca e escorregadia.

Primeira visão da Fajã dos Vimes. Esta fajã situa-se na costa sul e pertence à freguesia da Ribeira Seca, concelho da Calheta. É conhecida pelo seu artesanato e pela plantação de cafezeiros! Trata-se, provavelmente, do único lugar na Europa onde se produz café.

Chegada.

Visão geral da fajã. Em plano de fundo, a vegetação cobre o caminho abrupto em escadaria que liga a serra à planície costeira.

Antiga escola primária. Começa a chover…

O Sr. Manuel Nunes é um dos principais produtores de café na Fajã dos Vimes. Tomá-lo é uma experiência exclusiva do Café Nunes, pois a pequena produção apenas se destina ao seu estabelecimento. Não posso comprar café para levar, mas aceitou mostrar-me o seu cafezal: “Os arbustos dão-se bem aqui. Temos calor e humidade suficientes para eles crescerem. Por cada ano bom, segue-se um fraco. A colheita realiza-se entre maio e agosto”. Em relação ao método de produção: “Primeiro, secamos o fruto ao Sol. Assim que a casca ficar seca, debulhamo-la ligeiramente com uma pedra. De seguida, torramos as sementes numa sertã ou num caldeirão a lenha, mexendo frequentemente. Depois de moídas, o café está pronto a ser utilizado. Da plantação até à moagem, todo o trabalho é feito à mão”. Impressão pessoal: o café é mais forte do que o habitual.

Baga de café arábica. Cafezal do Sr. Manuel Nunes.

A caminho da Fajã da Fragueira.

A Fajã dos Vimes ficou para trás.

Fajã da Fragueira, hoje abandonada, terra natal do jorgense mais conhecido, Francisco de Lacerda. A subida para o Portal foi uma obra equivalente a três escadarias da Torre dos Clérigos dentro de uma estufa! Com o coração a bater 40 mil rotações por minuto, fiz várias paragens para recuperar o fôlego e não partir o motor. 

Chegada à Calheta no final da tarde, com o Pico discreto, ao fundo.

Topo

O Topo situa-se no extremo sueste da ilha. Devido à dificuldade em transpor a Serra, a vila esteve sempre “mais próxima” da Terceira do que da Calheta. Essa influência histórica está patente na arquitetura civil e religiosa, na atividade comercial e no registo de vários casamentos entre topenses e terceirenses. Apenas, em meados do século passado, foi aberta uma ligação terrestre aceitável com a Calheta. Rua principal, que liga o Império da Irmandade do Divino Espírito Santo ao Cais.

Igreja de Nª Sª do Rosário, reconstruída em 1761, após o “Mandato de Deus”, nome popular do sismo de 1757, o mais violento ocorrido, até hoje, no arquipélago.

O Solar dos Tiagos foi recentemente restaurando e reconvertido em ATL e centro de dia. Na capela, anexa, repousa Willem van den Hagen, aportuguesado para Guilherme da Silveira, um flamengo quinhentista, dinamizador do povoamento dos Açores.

Sem a importância económica que teve no Pico e Faial, a caça à baleia também teve lugar nos mares de S. Jorge. A primeira armação na ilha foi fundada no Topo, em 1880. Vigia da baleia cercada pelo milho e aparentemente abandonada ao tempo.

Costa no cais do Topo. Até meados do século XX, o Topo foi o principal porto de comunicação entre S. Jorge e a Terceira. Aqui embarcavam passageiros e desmanchavam-se cachalotes. Desse tempo, restou apenas um guindaste que auxilia atualmente as poucas embarcações que aqui encostam. 

Sede do Clube União. Preparativos do 145º aniversário. Nunca estive numa ilha com tantas bandas filarmónicas. Poucos devem ser os habitantes que não sabem tocar um instrumento musical.

Após a missa, procissão no âmbito dos festejos da banda.

Procissão II.

Procissão III.

Ilhéu do Topo visto da pontinha. Excluída a via aérea, há três formas de lá chegar: de barco, a nado ou montado em cima de uma vaca ou ovelha! Apesar de ser uma área protegida, os animais atravessam o pequeno canal a nado até ao ilhéu e por lá ficam horas a pastar. Perguntei se havia “chatices” com o pessoal do Parque Natural de S. Jorge ou tubarões na área. Resposta de soslaio de um topense, em início de estágio para uma prometida borracheira dominical: “Nãaa, senhor!...”. A consciência ambiental enfrenta dificuldades para atravessar a Serra do Topo.

Fajã dos Cubres

Fajã da Caldeira do Santo Cristo vista da Fajã dos Tijolos.

No caminho para a Fajã dos Cubres, entre as Fajãs dos Tijolos e do Belo e 
com a Ermida e a Caldeira em pano de fundo.

Primeira visão da Fajã dos Cubres. No centro, há uma lagoa irregular, mais pequena do que a da Caldeira, com quatro pequenos ilhéus. Estas são as únicas fajãs dos Açores com vida lacustre e constituem espaços privilegiados para a observação de aves.

Após a Fajã “fantasma” do Belo, 
as vacas foram o primeiro sinal de vida na chegada à Fajã dos Cubres.

Recentemente, várias casas nas fajãs têm sido recuperadas para ocupação sazonal.

A História da Fajã dos Cubres, tal como a da Fajã da Caldeira do Santo Cristo, foi marcada por dois sismos: o primeiro, de 9 de julho de 1757, esteve na sua origem; o segundo, de 1 de janeiro de 1980, provocou o abandono significativo da sua população. Ao longo do trilho costeiro, são visíveis muitas casas em ruínas.

Para quem inicia o trilho da Fajã da Caldeira do Santo Cristo na Serra do Topo, a Fajã dos Cubres é o ponto terminal. Daqui, há uma bela estrada panorâmica, tipo Rally de Monte Carlo, com ligação aos Nortes. Uma distração ou uma travagem falhada garantem um salto da ribanceira com mergulho acrobático no mar! Miradouro sobre as Fajãs dos Cubres, em primeiro plano, e da Caldeira do Santo Cristo, ao longe.

Desvio em Norte Pequeno para a Fajã dos Cubres.