domingo, 4 de outubro de 2015

Ponta Delgada - concelho

O Miradouro Vista do Rei é o local de onde o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia contemplaram a Lagoa das Sete Cidades, em 6 de Julho de 1901. Em frente, entreabre-se um amplo panorama que abrange céu, ilha e mar. Ao centro, no interior da caldeira, a lagoa de dupla coloração, atravessada por uma pequena ponte que separa as águas verdes e azuis. Em redor, paredes vulcânicas carregadas de densos bosques de criptomérias e caminhos ladeados por sebes de hortências e conteiras. Lembro-me da primeira vez que cá estive e do impacto que este cenário onírico e silencioso teve em mim. Passados trinta anos, a paisagem é a mesma de todos os tempos, mas já não há sossego no pequeno largo que se encontra ao lado da carcaça de um hotel abandonado, sobranceiro à lagoa. Chegam autocarros com turistas, o estacionamento é um pouco caótico e, tal como num recinto de uma festa popular, há roulotes com recordações, comidas e bebidas! (O bom senso recomenda que se reorganize o local antes que a vulgaridade se torne irreversível). Nas imediações, retoma-se a tranquilidade e o deslumbramento nas cumeeiras que circundam a caldeira e noutros miradouros menos concorridos, como, por exemplo, no Canário.

À tarde, após o almoço nas Sete Cidades e a visita à Casa do Parque, (http://siaram.azores.gov.pt/centros-interpretacao/casa-do-parque-SMiguel/Casa-do-Parque.pdf), o percurso continua em direcção à Ponta da Ferraria, na costa Ocidental, onde se situam umas piscinas naturais e um spa termal moderno e sofisticado. Para lá chegar, é preciso descer a escarpa, por uma estrada tortuosa, desde o Miradouro de Sabrina até à borda costeira. A originalidade das Termas da Ferraria resulta da mistura de águas de nascentes vulcânicas a 62º C com águas do mar a 20º C. Eis a questão: ser “rei por um dia” no resguardo do spa (ver programas em http://www.termasferraria.com/) ou tomar um banho ao ar livre na pequena enseada com o Atlântico a 40ºC? Da dúvida à certeza. A Ferraria é mais um prodígio derivado da natureza vulcânica açoriana.

Vista das costas Norte e Sul de S. Miguel, sentido Oeste-Este, a partir do Pico do Carvão.

Miradouro do Canário.

Lagoa Santiago.

Lagoa das Sete Cidades a partir do Miradouro Vista do Rei.

Postal digitalizado: Sete Cidades, 7 de Setembro de 1919, fotografia de Francisco Afonso Chaves, 1857-1926, colecção Museu Carlos Machado – Ponta Delgada, patente na exposição “Para além da paisagem”, Casa do Parque das Sete Cidades.

Lagoa das Sete Cidades vista do Espaço. Agência Espacial Europeia, 6 de Dezembro de 2014. Fonte: http://oasa.centrosciencia.azores.gov.pt/noticia/lagoa-das-sete-cidades-nos-a%C3%A7ores-vista-do-espa%C3%A7o-%C3%A9-destaque-na-esa

Miradouro de Sabrina sobre a Ponta da Ferraria – Ginetes.

Ponta da Ferraria – Ginetes.

Piscinas naturais – Ponta da Ferraria – Ginetes.

Miradouro do Escalvado sobre a Ponta da Ferraria.

Miradouro do Escalvado sobre Mosteiros.

Praia de Mosteiros.






sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Despedidas

Queimada, Aeroporto de S. Jorge.
O avião da SATA que me há de levar à Base das Lajes, Terceira.

Voo S. Jorge -Terceira. Vista aérea da costa norte de S. Jorge.

Ponta dos Rosais

À saída de Velas, a caminho dos Rosais, regresso ao ambiente bucólico.

À entrada do Parque Florestal Sete Fontes, sigo as indicações da tabuleta: 
reduzo a velocidade de 6 para 3 km por hora.

Longo é o caminho até à Ponta dos Rosais. O prolongado silêncio apenas foi interrompido pelo mugir das vacas ou pela passagem de um ou outro agricultor.

Vacas sebastiânicas.

Pico e Faial vistos do interior da vigia da baleia da Ponta dos Rosais.

Pico etéreo.

Complexo do Farol dos Rosais visto da vigia.

Quando foi inaugurado, em 1958, era o melhor farol do território nacional. Os sismos limitaram-lhe a existência. A crise sísmica de 1964 forçou a primeira evacuação das famílias que ali viviam; o terramoto de 1980 provocou o abandono definitivo. Hoje, é um espaço fantasmagórico. Nas paredes, há registos de breves aventuras de verão e algumas notas de humor: “Está a ser filmado!”

Degradação e abandono.

Luzes e sombras.

Entrada principal e céu índigo.

As melhores vistas escondem-se nas traseiras do complexo. Afastam-se as matas e vemos a Ponta dos Rosais, a cabeça do Dragão, o penhasco derradeiro de S. Jorge.

Visão aberta do Atlântico, com as ilhas do Pico e do Faial. Do ponto de vista simbólico, a minha viagem chegou ao fim. O longo caminho de regresso a Velas deu-me tempo para balanços dos dias jorgenses.

Velas

Miradouro de Velas, o concelho mais importante de S. Jorge. “Os naturais (…) das duas vertentes da Serra única e longitudinal de S. Jorge (…) acostumam-se de meninos ao palpite e à sondagem do horizonte: são naturalmente vigias ou velas. A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar. (…) O nome da vila de Velas, que coube à cabeça de povoamento de S. Jorge, põe na ilha alpestre essa espécie de divisa do destino islenho – que é vigiar, velar.” Vitorino Nemésio, em O Corsário das Ilhas.

Barco interilhas S. Roque do Pico -Velas.

Havana em Velas. 
Um momento Buena Vista Social Club na Praça da República.

Rua Francisco de Lacerda, principal artéria comercial.

A Igreja Matriz de Velas possui um pequeno e interessante museu de arte sacra. O Café Açor tem uma ala lateral sobre a Praça Velha, o espaço nobre e mais antigo da vila.

Na marginal, o auditório amarelo está assente nas fundações do antigo Forte Nossa Senhora da Conceição que protegia a entrada oeste do porto.

Cais de Velas, em 1913. Desmancho da baleia. Os cetáceos eram acostados ao cais e as mantas de toucinho retiradas com ajuda de um guindaste. A partir de 1946, a maioria dos cachalotes passou a ser processada nas fábricas do Pico e do Faial. Fonte: Ilustração Portuguesa através do www.portodacalheta.blogspot.com 

Cais de Velas em 2014.

Retoques na pintura. Cais de Velas. Do alto do firmamento, protegido pelo seu bando de milhafres, diz o valente açor aos pobres pintainhos: “Não sejam piegas!” Mas, cá em baixo, no galinheiro, o apego ao Calimero é intemporal: o milho é pouco, as raposas estão sempre à espreita e há que aguentar com o fedor das doninhas.

Cordilheira Central: do Pico do Pedro ao Pico da Esperança. Descida para Norte Grande e Fajã do Ouvidor.

Início do trilho florestal junto do Pico do Pedro, que me há de levar, 
17 km e 5 horas depois, até à Fajã do Ouvidor.

Vista da Urzelina.

Memorial do acidente da SATA, em 11 de dezembro de 1999, que vitimou 35 pessoas: 31 passageiros e 4 tripulantes. Lembro-me do acidente, pois, à época, trabalhava com uma colega micaelense que era amiga do piloto e que estava visivelmente afetada com a tragédia. Na véspera, tinha falado com um jorgense que tem um cunhado bombeiro que esteve no local, na operação de recolha dos destroços e dos restos mortais. O relato tenebroso que me foi transmitido não é transponível para aqui. Ao passar por cá, passados quinze anos, é impossível não ficar indiferente. O nosso estado de alma altera-se, da contemplação descontraída ao recolhimento circunspecto. O nevoeiro que envolve a montanha e a brisa fresca que se faz sentir acrescentam mistério e tristeza.

A caminho do encoberto Pico da Esperança, o ponto mais alto de S. Jorge, com 1053 metros. 
Veem-se, ao mesmo tempo, as costas norte, à esquerda, e sul, à direita.

Por momentos, a natureza dá uma trégua. 
O vento levantou a bruma e consegue-se ver o Pico da Esperança.

Pico do Arieiro encoberto.

Pequena lagoa muito próxima do Pico da Esperança.

Pico da Esperança, uma conquista inútil.

Pico da Esperança num dia claro: parte oriental da ilha e costas norte e sul. 

Pico do Arieiro um pouco mais descoberto.

De repente, por ação das nuvens e da disposição estendida da vertente da montanha, 
parece que o canal de S. Jorge se transformou num imenso lago.

Vista do Pico. A cordilheira é o espaço privilegiado para observar as ilhas do grupo central: na costa norte, a Terceira e a Graciosa; na costa sul, o Pico e o Faial. Tem razão Raúl Brandão quando escreveu, n`As Ilhas Desconhecidas: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente.”. Aqui temos quatro!

À medida que se desce, o Sol e a humidade regressam em força. As pernas começam a dar sinais de fraqueza e as articulações de desgaste. No caminho em direção ao Norte Grande.

Sede do Parque Natural de S. Jorge, instalado na antiga escola primária de Norte Grande.

Fajã do Ouvidor, vista do Miradouro do mesmo nome.

Nesse dia, já não tive tempo nem forças para ir até lá em baixo. Fiquei-me por aqui, a contemplar o Ouvidor e o Atlântico. No regresso, conheci um calhetense que trabalhou na Póvoa de Varzim e que me falou da Casa dos Frangos, a popular churrascaria da nacional 13. Viajar é colecionar encontros improváveis. 

Urzelina

O nome da freguesia remete para urzela, uma planta tintureira importante na economia açoriana quinhentista. Torre da antiga igreja, único vestígio que sobreviveu à erupção vulcânica de 1808.

Na Urzelina, ouvi de um engraçado habitante das Manadas (freguesia vizinha) uma das frases mais curiosas que registei nesta viagem: «Quando vou a S. Miguel, perguntam-me: “Então, quando regressas às ilhas?” Às ilhas!?... Esses tipos vivem onde? Os micaelenses têm a mania que vivem num continente!» Uma variante insular do “Lisboa é capital, o resto é paisagem”. Lavas petrificadas junto às piscinas, com vista para o Pico.

Cais da Urzelina. Ao fundo, do lado direito, o pequeno museu etnográfico, instalado no antigo armazém de laranjas e dos botes baleeiros. No cais, há um painel de azulejos onde se refere que “a Urzelina é a Sintra de S. Jorge”. A freguesia é acolhedora, está enquadrada num belo cenário natural, possui algumas casas senhoriais, mas a afirmação é claramente exagerada. Castelo de Vide, no Alto Alentejo, também reclama este título. No Cabo da Roca, concelho de Sintra, o posto de turismo vende certificados a atestar a presença no ponto mais ocidental da Europa. Em abono da verdade, esse marco geográfico pertence ao Ilhéu de Monchique, nas Lajes das Flores. Enfim, anda meio mundo a enganar outro.

Interior do museu etnográfico da Urzelina, com diversas alfaias agrícolas e objetos do quotidiano doméstico. No primeiro plano, uma carruagem que pertenceu a Francisco de Lacerda.