domingo, 4 de outubro de 2015

Povoação

Foi na Povoação que, conforme refere Gaspar Frutuoso, em Saudades da Terra, se iniciou, na década de quarenta, do século XV, o povoamento de S. Miguel, com gentes vindas de diversas regiões do Reino. Junto ao porto, há monumentos que assinalam este facto e encontra-se a Matriz Velha, uma das mais antigas igrejas da ilha, que, no decorrer do tempo, sofreu várias obras que alteraram a fachada e a estrutura originais. Não há praticamente turistas na vila, nem nas freguesias da costa Sudeste, entre a Serra da Tronqueira e o Atlântico. É neste fim do mundo micaelense que fica o Sanguinho, um lugar inspirado pelo nome comum da planta endémica Frangula azorica http://siaram.azores.gov.pt/flora/flora-vascular/sanguinho/1.html. A partir do Faial da Terra, é necessário percorrer, a pé, um trilho de 1.5 km, que sobe, em ziguezague, a encosta de uma montanha. Rodeado por matas e quedas de água, o povoado é constituído por vinte casas e foi abandonado nos anos setenta, por causa da ausência de condições de habitabilidade e da emigração. No passado, foi erguido para os agricultores ficarem mais próximos das suas terras e estarem protegidos das cheias e das tempestades que ocorriam no Inverno. Actualmente, várias habitações estão em processo de recuperação, recheadas com o conforto e os equipamentos modernos, com vista à ocupação de quem foge de multidões e faz do sossego o lema das suas férias.

Faial da Terra I.

Faial da Terra II.

Sanguinho I.

Sanguinho II

Sanguinho III.

Sanguinho IV.

 Matriz Velha, Povoação.

 Portal do Povoamento, Povoação.

Homenagem aos primeiros povoadores, Povoação.

Nordeste

Durante muito tempo, foi conhecido pela “décima ilha”, devido ao isolamento e à falta de comunicações. As horas custavam a passar e tudo parecia demasiado pequeno para se suportar durante uma vida. No romance Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo descreve vários episódios que retratam a difícil condição humana dos nordestinos e as viagens épicas a Ponta Delgada. Hoje, chega-se rapidamente, mas são poucos os que chegam. Não há lagoas, caldeiras e fumarolas que atraiam grande quantidade de forasteiros. Os fluxos turísticos estão concentrados entre as Sete Cidades e as Furnas e deixam à margem o Nordeste e toda a costa Este, a mais preservada da ilha. É impossível não ficar impressionado com a exuberância da vegetação, a profundidade dos desfiladeiros e a pacatez das pequenas aldeias situadas à beira-mar. Assim se alcança a Ponta da Madrugada, a finisterra Oriental, depois de percorrer todas as curvas de uma velha e esburacada estrada regional. Entre o precipício e o continente são 1600 km de mar. Por momentos, fica-se a observar, debaixo de um céu de chumbo, a linha do horizonte na mais completa solidão. Como afirmou Onésimo Teotónio Almeida, os Açores serão sempre um território “para quem não tem receio de estar só a contar os matizes de cinzento e a agarrar na palma da mão bocados de tempo parado.”

Centro histórico da vila, com a Igreja Matriz ao fundo.

Traçado urbano no centro da vila.

Ponte dos Arcos.

Farol da Ponta do Arnel.

Ponta do Arnel.

Ponta da Madrugada I.

Ponta da Madrugada II.


Ribeira Grande

As condições ambientais e climatéricas de S. Miguel permitiram a introdução de diversas culturas tropicais, que contribuíram para o desenvolvimento regional e que constituem hoje imagens de marca do território. A mais conhecida será, provavelmente, o ananás, plantado em estufas nos arredores de Ponta Delgada. Mas, há outras. Na freguesia da Maia, na costa Norte, pode-se visitar a Gorreana, a mais antiga fábrica de chá na Europa e, no final, degustar uma infusão e admirar a serenidade que emana da geometria linear das plantações da camellia sinensis (www.gorreana.org). Não muito longe dali, existe o Museu do Tabaco, instalado numa antiga fábrica que funcionou entre 1871 e 1988. Ao contrário da Gorreana, poucos visitam o museu. É pena, pois não é apenas o guardião do processo de transformação de um produto; é também um importante testemunho da influência económica da planta e das alterações sociais que provocou nos hábitos e nas relações laborais (http://museutabacomaia.webcindario.com/ index.php).
No maciço vulcânico da Serra de Água de Pau localizam-se os principais motivos de interesse paisagístico da Ribeira Grande: o Monumento Natural da Caldeira Velha e a Reserva Natural da Lagoa do Fogo. A Caldeira Velha é uma zona de vulcanismo secundário onde sobressai um campo fumarológico, associado a um sistema de nascentes termais que caem em cascata numa pequena represa de águas acastanhadas, devido à abundância de ferro. No Parque, existem duas piscinas envolvidas numa vegetação luxuriante e um centro de interpretação que permite fazer uma viagem pela origem vulcânica das ilhas (http://siaram.azores.gov.pt/centros-interpretacao/CI-Ambiental-Caldeira-Velha/_intro.html). Subindo a estrada, em direcção ao Pico da Barrosa, chega-se à Lagoa do Fogo. Enquanto as Sete Cidades conservam a carga edénica que se associa às lendas das ilhas perdidas no meio do Oceano, a beleza dramática do Fogo recorda-nos a sua formação. Do alto da serra 300 mil anos nos contemplam.

Mulheres transportando a folha de chá, 2ª metade do século XIX.
Fonte: Arquivo fotográfico da Fábrica de Chá da Gorreana.

Exterior da Fábrica de Chá Gorrena.

Interior da Fábrica de Chá Gorreana.

Plantações de chá I - Gorreana.

Plantações de chá II - Gorreana.

Entrada no Museu do Tabaco da Maia.

Interior do Museu do Tabaco da Maia.

Secagem da folha de tabaco.

Miradouro de Santa Iria sobre a costa Nordeste de S. Miguel.

Caldeira Velha.

Piscina natural da Caldeira Velha I.

Cascata.

Piscina natural da Caldeira Velha II.

Lagoa do Fogo.

Ponta Delgada - concelho

O Miradouro Vista do Rei é o local de onde o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia contemplaram a Lagoa das Sete Cidades, em 6 de Julho de 1901. Em frente, entreabre-se um amplo panorama que abrange céu, ilha e mar. Ao centro, no interior da caldeira, a lagoa de dupla coloração, atravessada por uma pequena ponte que separa as águas verdes e azuis. Em redor, paredes vulcânicas carregadas de densos bosques de criptomérias e caminhos ladeados por sebes de hortências e conteiras. Lembro-me da primeira vez que cá estive e do impacto que este cenário onírico e silencioso teve em mim. Passados trinta anos, a paisagem é a mesma de todos os tempos, mas já não há sossego no pequeno largo que se encontra ao lado da carcaça de um hotel abandonado, sobranceiro à lagoa. Chegam autocarros com turistas, o estacionamento é um pouco caótico e, tal como num recinto de uma festa popular, há roulotes com recordações, comidas e bebidas! (O bom senso recomenda que se reorganize o local antes que a vulgaridade se torne irreversível). Nas imediações, retoma-se a tranquilidade e o deslumbramento nas cumeeiras que circundam a caldeira e noutros miradouros menos concorridos, como, por exemplo, no Canário.

À tarde, após o almoço nas Sete Cidades e a visita à Casa do Parque, (http://siaram.azores.gov.pt/centros-interpretacao/casa-do-parque-SMiguel/Casa-do-Parque.pdf), o percurso continua em direcção à Ponta da Ferraria, na costa Ocidental, onde se situam umas piscinas naturais e um spa termal moderno e sofisticado. Para lá chegar, é preciso descer a escarpa, por uma estrada tortuosa, desde o Miradouro de Sabrina até à borda costeira. A originalidade das Termas da Ferraria resulta da mistura de águas de nascentes vulcânicas a 62º C com águas do mar a 20º C. Eis a questão: ser “rei por um dia” no resguardo do spa (ver programas em http://www.termasferraria.com/) ou tomar um banho ao ar livre na pequena enseada com o Atlântico a 40ºC? Da dúvida à certeza. A Ferraria é mais um prodígio derivado da natureza vulcânica açoriana.

Vista das costas Norte e Sul de S. Miguel, sentido Oeste-Este, a partir do Pico do Carvão.

Miradouro do Canário.

Lagoa Santiago.

Lagoa das Sete Cidades a partir do Miradouro Vista do Rei.

Postal digitalizado: Sete Cidades, 7 de Setembro de 1919, fotografia de Francisco Afonso Chaves, 1857-1926, colecção Museu Carlos Machado – Ponta Delgada, patente na exposição “Para além da paisagem”, Casa do Parque das Sete Cidades.

Lagoa das Sete Cidades vista do Espaço. Agência Espacial Europeia, 6 de Dezembro de 2014. Fonte: http://oasa.centrosciencia.azores.gov.pt/noticia/lagoa-das-sete-cidades-nos-a%C3%A7ores-vista-do-espa%C3%A7o-%C3%A9-destaque-na-esa

Miradouro de Sabrina sobre a Ponta da Ferraria – Ginetes.

Ponta da Ferraria – Ginetes.

Piscinas naturais – Ponta da Ferraria – Ginetes.

Miradouro do Escalvado sobre a Ponta da Ferraria.

Miradouro do Escalvado sobre Mosteiros.

Praia de Mosteiros.






sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Despedidas

Queimada, Aeroporto de S. Jorge.
O avião da SATA que me há de levar à Base das Lajes, Terceira.

Voo S. Jorge -Terceira. Vista aérea da costa norte de S. Jorge.

Ponta dos Rosais

À saída de Velas, a caminho dos Rosais, regresso ao ambiente bucólico.

À entrada do Parque Florestal Sete Fontes, sigo as indicações da tabuleta: 
reduzo a velocidade de 6 para 3 km por hora.

Longo é o caminho até à Ponta dos Rosais. O prolongado silêncio apenas foi interrompido pelo mugir das vacas ou pela passagem de um ou outro agricultor.

Vacas sebastiânicas.

Pico e Faial vistos do interior da vigia da baleia da Ponta dos Rosais.

Pico etéreo.

Complexo do Farol dos Rosais visto da vigia.

Quando foi inaugurado, em 1958, era o melhor farol do território nacional. Os sismos limitaram-lhe a existência. A crise sísmica de 1964 forçou a primeira evacuação das famílias que ali viviam; o terramoto de 1980 provocou o abandono definitivo. Hoje, é um espaço fantasmagórico. Nas paredes, há registos de breves aventuras de verão e algumas notas de humor: “Está a ser filmado!”

Degradação e abandono.

Luzes e sombras.

Entrada principal e céu índigo.

As melhores vistas escondem-se nas traseiras do complexo. Afastam-se as matas e vemos a Ponta dos Rosais, a cabeça do Dragão, o penhasco derradeiro de S. Jorge.

Visão aberta do Atlântico, com as ilhas do Pico e do Faial. Do ponto de vista simbólico, a minha viagem chegou ao fim. O longo caminho de regresso a Velas deu-me tempo para balanços dos dias jorgenses.