1.
Em Junho de 2016, revisitei o Buçaco. O local é muito conhecido
devido ao belíssimo Grande
Hotel,
erguido no final do século XIX, a partir do antigo convento dos
monges carmelitas do século XVII. O edifício fazia parte de um
complexo arquitectónico de habitação, ao qual se encontra
associado um Sacro monte. A leitura do
livro Buçaco,
O Deserto
das Carmelitas Descalços,
de Paulo Varela Gomes, ajudou-me a compreender o significado
artístico e religioso do conjunto monumental (em síntese, uma
representação de Jerusalém), e despertou em mim, enquanto
caminhava na mata e imaginava os monges em contemplação, o desejo
de ir a Israel.
2.
Entre o desejo e a partida, havia factores a considerar que podiam
por em causa a realização da viagem, devido à conflituosidade
ostensiva ou latente no Médio Oriente: os efeitos laterais da guerra
da Síria (Israel é um interveniente discreto, mas atento à
influência iraniana na vizinhança); o apoio declarado da actual
administração americana à expansão dos colonatos (em contra-ciclo
com Obama); a comemoração do 50º aniversário da Guerra dos Seis
Dias (que conduziu à ocupação de Jerusalém Oriental, da
Cisjordânia, dos Montes Golã, de Gaza e do Sinai, entretanto
devolvido ao Egipto, em 1981); assassinatos/retaliações
ou crises mais prolongadas (como a do Monte do Templo/Nobre
Santuário, que colocou Jerusalém sob tensão durante a segunda
quinzena de Julho, à qual se juntou a crise diplomática com a
Jordânia); ou
simplesmente, o perigo de uma frase ou acção política proveniente
da particular sapiência do Presidente dos EUA, que inflamasse os
ânimos na região (recorde-se a promessa eleitoral de mudar a
Embaixada para Jerusalém). Nos últimos três meses, consultei
diariamente dois jornais israelitas, o Haaretz
e o The
Jerusalem Post,
e uma agência noticiosa palestiniana, a Maan
News Agency,
para estar a par do clima político local e regional e não ser
apanhado no meio de uma terceira intifada.
3.
Quis afastar-me dos problemas no terreno, mas era inevitável que, ao
viajar de forma livre e independente, o conflito israelo-palestiniano
se cruzasse comigo. Tudo começa e termina no apertado controlo de
segurança no aeroporto Ben Gurion e sente-se, no dia-a-dia, na
presença maciça de soldados em pontos críticos na cidade velha de
Jerusalém, nos checkpoints
à entrada/saída da Palestina, nos controlos de
identidade/detectores de metais em espaços
públicos.
Além disso, é muito comum encontrar civis armados, que passeiam
metralhadoras ao ombro como quem leva um saco tiracolo. Vi mais armas
em Israel do que em toda a minha vida. Não se pense, porém, que os
conflitos estão longe de se circunscreverem aos judeus e muçulmanos.
Em menor escala, as rivalidades entre as diversas confissões cristãs
estão bem presentes na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, ou
na Igreja da Natividade, em Belém. Se os cristãos não se entendem
entre si, que autoridade têm para proclamar o fim da violência
entre judeus e muçulmanos?
4.
Nem sempre os excertos arquitectónicos conduzem a desastres
estéticos. A Basílica de Santa Sofia, em Istambul, não obstante a
transformação em mesquita, conserva a grandiosidade que levou os
bizantinos a olhar para Deus como um Ser inacessível e poderoso que
reduz o homem à sua insignificância. A Mesquita de Córdova, apesar
da catedral católica incrustada no centro, mantém a serenidade que
fez com que os muçulmanos andaluzes imaginassem Deus como uma luz
suave a percorrer um bosque de arcos em ferradura. Porém, na
cidade velha de Jerusalém, os principais edifícios religiosos são
palimpsestos de pedra, sem autenticidade ou unidade artística que
lhes confira um sentido. Resta-lhes
o carácter simbólico, o que não é pouco. Paradoxalmente, aqui
reside o seu maior interesse:
nem sempre a verdade histórica é mais importante do que o mito e
não há nada que torne um local tão sagrado como a competição
religiosa.
5.
A Igreja do Santo Sepulcro é uma monstruosidade de estilos e
remendos à qual não será alheia a profusão de ordens religiosas
cristãs que tomam conta do edifício e que se gladiam entre si:
católicos romanos, ortodoxos gregos, apostólicos arménios,
ortodoxos etíopes, ortodoxos sírios e coptas egípcios. É um
teatro para turista ver, entre multidões que se atropelam e padres
pouco pacientes. A Mesquita de Omar ou Cúpula da Rocha é o templo
mais interessante do Trio Sagrado de Jerusalém, mesmo que o seu
interior esteja vedado a não muçulmanos. Integra-se na Esplanada
das Mesquitas, um espaço amplo e reluzente, que assenta sobre
camadas de História que nos levam até ao momento em que Abraão se
preparava para sacrificar o seu filho Isaac. Por má sorte ou
fatalidade, o Muro das Lamentações
serve-lhe
de apoio lateral e constitui a força unificadora das diferentes
correntes do judaísmo. Na noite de Shabbat,
a praça diante do Muro enche-se de figuras atormentadas que murmuram
salmos e se prostram em movimentos contínuos, ao mesmo tempo que, ao
lado, grupos dançam e cantam abraçados. Rigidez e alegria,
diferentes aproximações a Deus, comuns às outras religiões
abraâmicas. Aqui reside o epicentro do conflito sobre a soberania de
Jerusalém: para os judeus, o Muro evoca o Templo construído por
Salomão, que estaria no local onde agora se encontra a Cúpula da
Rocha, que os muçulmanos creem ter sido o último lugar pisado por
Maomé, na sua viagem nocturna, antes da ascensão aos céus. Como
poderá Deus responder a desejos contraditórios se os homens a
querem em exclusivo?
6.
Jerusalém é a casa do Deus único, capital para dois povos, sagrada
para três religiões e a única cidade com dupla existência:
terrena e celestial. É das alturas que guardo as melhores
recordações. No miradouro Rehavam, no Monte das Oliveiras,
avista-se um magnífico panorama da cidade velha, com a Cúpula
Dourada da Mesquita de Omar ao centro, e do mais antigo cemitério em
funcionamento, um mausoléu a céu aberto com mais de cento e
cinquenta mil túmulos. Para os crentes, Jerusalém é o palco do fim
do mundo e muitos milhares quiseram ser sepultados nas colinas diante
da Porta Dourada, à espera do Messias, para estarem na linha da
frente numa eventual ressurreição, no dia do Juízo Final. Mas, se
eu tivesse que escolher apenas um cenário, ficaria com o do terraço
do Hospício Austríaco, dentro da cidade velha. Dali, Jerusalém é
um emaranhado de telhados, cúpulas, minaretes, torres e campanários.
Tal como a terra, o céu é disputado por todos. O burburinho que
percorre continuamente as ruas estreitas e sinuosas parece perde-se
no éter. Por momentos, sob um luminoso azul celeste, Jerusalém faz
jus ao seu nome hebraico: Yeroushalayim,
a cidade da paz.
7.
O Yad
Vashem
(“um memorial e um nome”) é um vasto campo museológico que
recorda os seis milhões de judeus que morreram durante a II Guerra
Mundial e honra os “Justos Entre as Nações” que contribuíram
para salvar vidas humanas. O edifício principal, projectado por
Moshe Safdie, tem a forma de um prisma triangular (a parte superior
da Estrela de David), que representa o aniquilamento de metade da
população judaica. As nove galerias contam a Shoah
(Holocausto), desde a ascensão do Terceiro Reich
até ao fim da guerra. Muitos documentos e objectos estão expostos em
todas as salas, acompanhados de vídeos com depoimentos. À medida
que se segue pelo corredor, o comportamento dos nazis em relação
aos judeus vai sendo mostrado: como foram perseguidos, como eram
transportados, como funcionavam os campos de concentração. A
organização alemã e a sua febre documental são a desgraça
daqueles que negam o Holocausto. A última galeria, “A Sala dos
Nomes”, a mais comovente de todas, tem um
cone pendurado no tecto, forrado, no interior, com fotos de vítimas,
que desce sobre um poço com pedras, que lembra todos
os que
morreram no anonimato. À sua volta, a parede é uma prateleira com
uma infinidade de livros que guardam “Páginas de Testemunho”,
fichas com nomes e dados pessoais daqueles
que
perderam a vida, mas cuja identidade foi possível resgatar do
esquecimento. A visita termina diante um triângulo vazado, para que
se possam admirar as colinas de Jerusalém. Depois da escuridão, a
luz. Será possível retirar algum ensinamento desta tragédia e
evitar que a História se repita? Não sei... O crescimento dos
partidos de extrema-direita, na Europa, e as recentes manifestações
em Charlottesville, na Virgínia, constituem sinais preocupantes e
parecem mostrar que, mesmo em sociedades desenvolvidas, não há
seguros que nos garantam que a História não se repetirá.
8.
No Museu de Israel podemos conhecer a História e as diferentes
expressões da cultura judaica. O país é um caleidoscópio humano,
com gentes provenientes desde o Norte de África até à Ásia
Central, da Europa até à Abissínia. Tal como nós, os judeus tem
uma ligação histórica com as terras do Preste João. Os falashas
(judeus da Etiópia) são descendentes de uma tribo perdida que,
segundo o Livro Kebra
Negast
(“Glória de Reis”), acompanhou Menelik (filho da Rainha de Sabá
e do Rei Salomão) de regresso à Etiópia, com a Arca da Aliança
(os ortodoxos etíopes acreditam que está depositada na Igreja de
Santa Maria de Sião, em Aksum, no norte do país). Os israelitas não
dão crédito a esta “História”. Contudo, em 1985 e 1991,
montaram duas operações que permitiram retirar mais de vinte mil
falashas
em redor do Lago Tana, a mais de dois mil metros de altitude, onde
ainda se fazem embarcações com papiro. Três horas de avião e três
mil anos depois, os falashas
aterraram
na modernidade e entraram no delicado jogo demográfico. São eles
que asseguram a segurança da maioria dos edifícios.
9.
Na central de camionagem, os Haredi
(“Tementes a Deus”, ultra-ortodoxos) leem a Tora, enquanto
adolescentes ouvem música nos auriculares. O mercado Mahane Yehuda
transborda
de gente e de cor; não muito longe, o bairro Mea
Shearim (“Cem
Portas”, onde vivem os ultra-ortodoxos) é um mundo à parte a
preto e branco. Na cidade velha, personagens bíblicos, com longas
túnicas e barbas espessas, figurantes de uma grande produção com o
Charlton Heston, cruzam-se com seculares saídos de um filme do Woody
Allen. Na rua Jaffa, mulheres com vestidos elegantes passeiam ao lado
de senhoras de peruca, com indumentária das suas bisavós, cercadas
por um rancho de filhos. Num bazar,
as minúcias dos ofícios ancestrais convivem com a tecnologia móvel
mais recente. Num Shabbat,
as necessidades do mundo actual driblam os interditos religiosos.
Caminhar pelas ruas ou vielas de Jerusalém é viajar num
curto-circuito temporal, entre aqueles que vivem o presente como se
estivessem cristalizados no passado e aqueles que vivem no presente a
pensar no futuro. A pontuar a paisagem urbana, soldados de
metralhadora
na
mão. Sinceramente, não sei o que me causa mais desconforto: um
atentado ocasional ou um jovem tenso com o dedo encostado ao gatilho.
Na Cidade Santa, o Diabo está sempre à espreita.
10.
A solução mais justa para Jerusalém seria um estatuto
internacional (ONU, 1947), aberta a todos os credos que nela se
sintam representados, tal como a retratou Marc Chagall nos frescos da
Sinagoga do Hospital Universitário Hadassah, em Ein Karem, mas
desconfio que ninguém iria aceitar. Nem estou à espera que isso
algum dia aconteça. À excepção de um curto espaço de tempo
(1229-1244), em que houve um acordo de soberania partilhada entre o
Sacro Imperador Frederico II e o Sultão do Egipto Al-Kamil (com
opositores em ambos os lados...), ao longo da História, judeus,
cristãos e muçulmanos nunca abdicaram do poder absoluto que tiveram
ou têm sobre Jerusalém. A vitória abriu as portas da cidade, a
derrota obrigou à partida. Quando muito, negociou-se o acesso aos
lugares santos. Sugerir esta proposta numa conversa informal corre-se
o risco de ser crucificado pela Realpolitik.
É a
força
bruta da realidade.
Ninguém precisa de me lembrar que os milagres são mais fáceis de
pintar do que concretizar.
Contudo,
há pequenos vínculos observáveis, que não escapam a quem está de
passagem, que poderiam servir de ponto de partida numa hipotética
reconciliação. Refiro-me a práticas sociais, como
encontros/diálogos entre judeus e muçulmanos nos transportes, nos
mercados, na rua ou nos parques infantis, onde as crianças parecem
agir com menos pruridos do que os adultos. Podem não ser frequentes,
mas eles existem. Por vezes, são surpreendentes: em Mea
Shearim,
conheci uma dupla masculina palestiniana que trabalhava com os
ultra-ortodoxos. A convivência pacífica é possível, mesmo no mais
estranho de todos os lugares.
11.
Foi no Mosteiro
Ortodoxo Grego Mar Saba, no Deserto da Judeia, na Palestina, que tive
o contacto humano mais enriquecedor. Como não há transportes
públicos para lá chegar, tive que negociar arduamente com um
taxista em Belém. Pelo caminho, Yusuf mostrou-me o checkpoint
para Hebron, graffitis
de Banksy, a bandeira palestiniana que se ergue no horizonte à saída
de Beit Sahour, um colonato israelita espetado num monte. Aos poucos,
o pequeno aglomerado urbano deu lugar a casebres dispersos habitados
por beduínos. Por fim, o deserto. Montes rochosos ondulados onde
nada floresce. Após trinta minutos de viagem, a estrada que
serpenteia a paisagem chegou ao fim. Era quase meio-dia e estavam
quarenta graus. O relógio começou a contar. Tinha uma hora para
visitar o mosteiro.
Bati
à porta e aguardei. A vida monástica exige paciência... Rodeado
por muros altos e espessos, Mar Saba estende-se numa ravina do Vale
de Cédron, onde vários patamares distribuem os diversos espaços:
igrejas, capelas, celas, salas, armazéns, cisternas, escadarias. Do
exterior, parece um labirinto que está prestes a cair num
precipício. As mulheres estão proibidas de entrar.
Há uma torre onde podem ter uma panorâmica global. Para elas, a
visita termina antes de começar. A porta abriu-se e fui recebido por
Ephraim. Mostrou-me a cúpula hexagonal que guardava os restos
mortais de S. Sabas, o fundador da Lavra,
em 483, antes do seu corpo incorrupto ter sido levado para Veneza
pelos cruzados. O Papa Paulo VI devolveu-o em 1965, e, actualmente,
encontra-se numa urna de vidro na magnífica igreja principal,
decorada com pinturas murais, representando episódios do Antigo e
Novo Testamentos. A escuridão interior, em contraste com a excessiva
iluminação externa, convida ao silêncio e à concentração.
Ephraim é de Salónica e está em reclusão há dezassete anos.
Aparenta meia-idade, veste camelauco, batina e sapatos pretos, tem
barba desgrenhada, rabo-de-cavalo discreto, cruz grega ao peito.
Segundo ele, o edifício
e os seus ocupantes estão abençoados e protegidos por Deus. Ao
longo dos séculos, resistiram a pilhagens, invasões, terramotos,
serpentes e escorpiões. Depois da igreja, deixou-me, por momentos,
num pátio interno, para observar a paisagem. Não fiquei lá muito
tempo, pois tinha um Sol impiedoso em cima de mim. De regresso,
aguardava-me Anastassius, também natural de Salónica, mais jovem e
expansivo do que o seu companheiro. A vida no mosteiro
segue os ritmos dos tempos bizantinos: levantar à meia-noite,
orações, serviços religiosos, jejuns, uma refeição principal por
dia, duas em dias especiais. Carne nunca, peixe em dias sagrados. Os
monges
vivem sem electricidade e água canalizada. Continuam a iluminar o
interior com candeias de azeite e obtêm água através de um riacho
que corre no fundo do vale. Alguns alimentos são produzidos por
eles,
outros são adquiridos nas populações vizinhas. As notícias chegam
quando
um membro da comunidade se desloca
ao exterior ou através dos forasteiros.
Anastassius não precisa de saber muito da Grécia, de Israel, da
Palestina, da Síria, do Estado Islâmico. Os detalhes não lhe
interessam. Basta-lhe o essencial: tragédia, sofrimento e mortes,
para dar sentido às suas orações. Pouco mudou nestes últimos mil
e quinhentos anos. Espírito de pobreza, simplicidade e humildade
continuam a fazer parte do caminho para encontrar Deus na solidão. O
mosteiro
é
habitado apenas por doze monges.
Já foram muitos mais no passado, mas a crise de vocações também
chegou à Grécia. Tiveram necessidade de acolher irmãos da Roménia,
Sérvia e Rússia, outras pátrias cristãs ortodoxas.
Se algum dia os gregos deixarem de ser maioria, a sua língua nunca
deixará de ser falada ali dentro, pois ela tem um laço inquebrável
com a fé. O raciocínio de Anastassius terminou com uma espécie de
sentença bíblica, iniciada num tom orgulhoso e concluída numa
intensidade a roçar a raiva: “O grego é a língua do
Cristianismo, da Filosofia e da Teologia. Temos as palavras
necessárias para exprimir com exactidão o que queremos dizer,
definir conceitos e evitar heresias. Por mais que queiram castigar a
Grécia, a sua herança civilizacional nunca desaparecerá!”. Quem
seria o destinatário ou os destinatários desta última frase? Quem
se exprime assim pode viver como no século V, mas tem um olhar
atento ao que se passa no século XXI. A visita acabou. A hora passou
a correr neste
local
onde o tempo corre muito lentamente. Não tenho palavras para
agradecer a hospitalidade nem para descrever o respeito que estes
corajosos homens me merecem. Já tinha estado em muitos conventos e
mosteiros,
mas nenhum se traduziu em algo semelhante ao que vivi naquele dia,
pelo envolvimento do lugar, pela sua longa história, pelo seu modo
de vida. Se ainda existe algo de belo e puro, é entre aquelas
paredes, numa escarpa desértica, que tem a sua residência.
12.
A história é conhecida. Após a destruição de Jerusalém, por
Tito, em 70 d.C., que conduzirá à segunda diáspora e ao nascimento
do judaísmo moderno (sem Templo), alguns judeus, liderados por
Elazar ben Yair, resistiram em Masada mais três anos, até que os
romanos construíram uma rampa em terra batida, ainda hoje quase
intacta, que lhes permitiu chegar às muralhas da cidadela. Contudo,
os sitiados recusaram a rendição. Compreendendo que a resistência
tinha chegado ao fim, tiraram à sorte dez entre eles que deveriam
matar os companheiros antes de eles próprios se suicidarem. De
acordo com o relato do historiador judaico-romano Flávio Josefo,
apenas duas mulheres e cinco crianças escaparam ao massacre. Os
romanos encontraram novecentos e sessenta cadáveres e víveres em
quantidade, para que soubessem que não tinha sido a fome que tinha
conduzido a este desfecho. Masada é um planalto rochoso que domina o
Mar Morto. No cimo dos quinhentos metros de falésias abruptas, um
terraço oval abriga uma extraordinária fortaleza natural, tornada
inexpugnável por Herodes, o
Grande,
que aí mandou construir um palácio e um conjunto de estruturas de
apoio. Não faltam em Israel locais arqueológicos, alguns deles alvo
de intervenções e análises polémicas. Tal como a conquista do
espaço, a arqueologia é um instrumento de poder, que visa criar uma
identidade nacional e um estratagema para reivindicações
territoriais. O jovem país precisa de provar que a sua História é
antiga ao mesmo tempo que cria raízes para o futuro. Porém, em
Masada, não é a posse da terra que está em causa. É algo mais.
Para os judeus, o que esta dramática história ensina é que jamais
serão subjugados. Antes a liberdade pela morte do que uma vida de
escravidão.
13. Tel Aviv: secular, relaxada, hedonista. Fundada em
1908, recebeu nos anos trinta muitos judeus que escapavam da Alemanha
Nazi, entre eles vários arquitectos, que introduziram o modelo
Bauhaus,
da Academia de Walter Gropius. A cidade
ficou repleta de construções simples, funcionais e lineares, com
tectos rectos e paredes brancas, dando a impressão de uma urbe limpa
e alinhada. É possível vê-las por todo o centro de Tel Aviv, se
bem que o seu estado de conservação seja desigual. O ar húmido
saturado de sal é nefasto e há vários edifícios a precisar de
restauro. Hoje, com meio milhão de habitantes e depois de ter
absorvido o velho porto de Jaffa, mantém a elegância urbanística,
em resultado do design ousado dos prédios e da extraordinária
frente mediterrânica. Mais do que luz e sofisticação, é a
dimensão humana que sobressai como demonstram a
abertura
e tolerância à diferença, o respeito aos idosos e deficientes, a
defesa do meio ambiente.
Dá gosto ver, num
sábado de manhã, as esplanadas cheias, as ciclovias movimentadas,
as famílias a
preparar um
piquenique, as pessoas a praticar desporto, as praias onde convivem
biquínis e burquínis, tudo num
ambiente descontraído, em que cada indivíduo parece estar bem
consigo e com a sociedade. Pode parecer um retrato banal, mas o
contraste com Jerusalém é abissal. Por último, um pormenor: há
muitos cães em Tel Aviv, mas não vi sujidade no chão. Um pequeno
grande sinal de civismo. Gostei de visitar Jerusalém, poderia ter
ficado um mês a explorar todas as suas pedras gastas pela passagem
dos homens, mas seria incapaz de lá viver. Há no ar um fervor
religioso que se faz sentir em normas e comportamentos sociais que
seriam incompatíveis com a minha mundividência. Em contrapartida,
bastou-me uma caminhada entre Jaffa e a praia de Metzitzim para ficar
rendido a Tel Aviv.
14.
Quando, em 1291, os mamelucos conquistaram em definitivo o porto de
S. João de Acre, actual Akko, no Norte de Israel, chegava ao fim o
período dos Estados Latinos do Oriente, impulsionado pelo movimento
das cruzadas. Tomada em 1104, a cidade tornou-se na principal porta
de entrada de cavaleiros e peregrinos europeus e num dos mais
importantes centros de comércio do mundo medieval. Desse tempo,
ficou um vasto património edificado pelas ordens religiosas
militares, mas, também, um outro legado talvez mais importante: os
juízos de valor sobre o uso da violência e o interesse pelas suas
causas. Entretanto, as
cruzadas continuam a agitar o imaginário ocidental com
representações românticas ou de inusitada brutalidade. Do lado
oriental, vocifera-se contra a presença de neocruzados ou aparecem
líderes que reclamam a herança identitária de Saladino. Como
se sabe, a violência justificada pela fé religiosa não se limita
ao passado. É um fenómeno contemporâneo em permanente mutação...
À semelhança dos aventureiros que daqui retornavam às suas terras,
terminei em Akko, simbolicamente, a minha viagem a Israel. No final
da tarde, apanhei o comboio de regresso a Tel Aviv, desci a baía de
Haifa e passei junto ao Monte Carmelo. Tempo para invocar a memória
do Buçaco, onde um dia esta viagem começou.