Durante a Guerra Fria, as Portas de Brandemburgo foram bloqueadas pelo Muro de Berlim, tal como nos mostra esta fotografia tirada por mão amiga pouco antes da queda. Foto: António César Marques, 1988.
A linha divisória desapareceu, mas a sua marca permanece no chão.
A História do Muro é a História da Guerra Fria. Na noite de 13 de
agosto de 1961 surgiu uma vedação de arame farpado em volta de Berlim
Ocidental. Com o tempo, ergueu-se um muro de 155 km que manteve os habitantes
da RDA acantonados durante 28 anos.
Entre o nascimento da RDA (07.10.1949) e a construção do Muro (13.08.1961),
estima-se que, pelo menos, 3 milhões de alemães tivessem fugido para o
Ocidente, o que correspondia a 1/6 da população. O muro foi construído para
estancar a fuga em massa, mas não impediu a vontade de fugir: entre 1961 e
1989, verificaram-se, pelo menos, 5 mil tentativas com êxito, 3 mil detenções e
140 mortes, vítimas diretas da política de “violação de fronteira”. Memorial
das Vítimas.
O Memorial das Vítimas e o Centro de Documentação situam-se na
Bernauer Strasse, uma rua ligada ao início e ao fim do muro. Aquando da sua
construção, houve fugas pelas janelas de prédios localizados no lado leste,
para a rua situada no lado ocidental. Foi aqui que começou a sua queda, em 9 de
novembro de 1989.
Um posto de vigia junto ao muro.
“O saltador do muro” (Mauerspringer)
é um memorial que relembra o salto para a liberdade de Conrad Schumann, em 15
de agosto de 1961 (dois dias após o encerramento da fronteira), no cruzamento
da Brunnenstrasse com Bernauer Strasse (foto: Peter Leibing). O jovem guarda da
RDA integrou-se na RFA. Trabalhou na Audi e constituiu família. Quando o muro
caiu, decidiu regressar à terra natal, para visitar familiares e amigos. O que
seria, aparentemente, um momento de alegria transformou-se num desconforto
pessoal. Com o salto tinha deixado de ser um deles e nunca mais poderia voltar
a sê-lo. Em 20 de junho de 1998, Schumann enforcou-se no pomar da sua casa.
Além da divisão política, da repressão fronteiriça e da separação de
famílias, o muro despertou curiosidade…
… e descontração.
Segmento do muro na atualidade, Bernauer Strasse. O estilo fluido e o sentido de humor facilitam a leitura da obra fundamental para compreender o contexto da estrutura física que marcou a Guerra Fria. “O Muro de Berlim” (Frederick Taylor, 2007).
Leste – Oeste, Ponte Oberbaum.
A East Side Gallery é uma galeria ao ar livre na secção mais
extensa do Muro (1.316m).
A pintura mais conhecida é do russo Dmitri Vrubel, que se inspirou na
fotografia “O Beijo Fraternal”, do francês Régis Bossu, na qual Leonid Brejnev
e Erich Honecker beijam-se calorosamente na boca (Comemoração do 30.º
Aniversário da RDA, 1979), para produzir a obra “Meu Deus, ajuda-me a
sobreviver a este amor mortal”. Esta saudação de “solidariedade e unidade”
entre líderes socialistas, interpretada no Ocidente como “excesso de afeto”, é
um ícone da Guerra Fria.
East Side Gallery, Berlim Impressionista.
Checkpoint Charlie era o posto fronteiriço mais conhecido do Muro de
Berlim. O local ficou associado a episódios de tensão, a filmes de espionagem e
a vistos de um dia.
Na Frierichstrasse, o ambiente misterioso da Guerra Fria deu lugar a
um parque de diversões: a cabine de controlo é uma imitação (original no Museu
dos Aliados) e há...
… “Safaris com Trabants”. Apesar de tudo, era inevitável
passar por aqui.
O “Palácio das Lágrimas” (Tränenpalast) era um posto de fronteira
entre Berlim Oriental e Ocidental, na Estação Friedrichstraße, que funcionou
entre 1962 e 1989.
O nome deriva das separações emotivas que ocorreram à entrada do edifício
entre alemães ocidentais e familiares residentes na RDA que não tinham
autorização para cruzar a fronteira. O Palácio das Lágrimas é o local para compreender a micro-História e a devastação da separação.
O interior é um memorial sobre o contexto e as burocracias da
época.
Um marco fronteiriço da RDA.
Literatura proibida no lado oriental: Der Spiegel e Playboy.
Nordbahnhof: exposição “Estações fronteiriças e estações
fantasma na Berlim dividida”.
Entre 1961 e 1989, durante a divisão da cidade imposta pelo muro, três
percursos da rede pública de transportes de Berlim Ocidental distinguiam-se dos
restantes. O metro das linhas U6 e U8 e o comboio urbano norte-sul atravessavam
o subsolo de Berlim Oriental, para transportar passageiros de uma estação de
Berlim Ocidental para outra.
As carruagens deslocavam-se lentamente, sem parar, ao mesmo tempo que guardas
armados vigiavam a sua passagem em plataformas desertas e mal iluminadas. A
expressão “estação fantasma” (Geisterbahnhof) reflete a perspetiva
ocidental de uma atmosfera estranha em território estrangeiro, enquanto do lado
oriental a interdição visava impedir a fuga.
O nome Ständige Vertretung refere-se à “Missão Permanente” da RFA
na RDA (em vez de Embaixada), que existiu de 1974 até 1990. A cervejaria-restaurante
está decorada com fotos de políticos alemães da época.
Em 1961, surgiu o “Homem do Semáforo” (Ampelmännchen), o
primeiro semáforo pedestre da RDA. Após a reunificação, Markus Heckhausen, um
designer alemão ocidental, salvou o boneco do esquecimento ao fundar a empresa
Ampelmännchen Ltd e fez fortuna com a venda de produtos ligados à marca. No
centro de Berlim existem várias lojas, sendo a maior, precisamente, na Unter
der Linder, n.º 35, onde o simpático peão luminoso nasceu.
A Gendarmennmarkt Platz: acolhe a Catedral Alemã, a Catedral Francesa
e o Konzerthaus, edifícios neoclássicos que sobreviveram à guerra.
O mundo dá muitas voltas. O antigo edifício Conselho de Estado da RDA (Staatsratsgebäude), que recebeu diplomatas e figuras internacionais, como Leonid Brejnev, Fidel Castro ou Mikhail Gorbachov, foi transformado numa Escola Internacional de Gestão e Tecnologia, uma business school como agora se diz.
No interior, enquanto os alunos debatem estratégias de empreendedorismo e inovação, os visitantes interessados no trabalho de Walter Womacka (1925-2010) ...
... observam o magnífico vitral "Da História do
Movimento Trabalhista Alemão" (1963/64), que se encontra na escadaria
do salão de entrada.
Imune ao ambiente liberal, a obra preserva o seu valor
artístico enquanto expressão do realismo socialista.
Um pequeno desvio na História do século XX para homenagear o rosto mais
bonito da Antiguidade: Nefertiti, presente no Neues Museum, na Ilha dos
Museus.
Walter Ruttmann filmou partes do “Berlim: Sinfonia de uma cidade” (“Berlin:
Die Sinfonie der Großstadt”, Alemanha, 1927) na Potsdamer Platz. A praça
foi destruída na 2.ª GM.
Durante a Guerra Fria, a praça foi dividida pelo muro e tornou-se uma zona
desolada.
Apos a reunificação, a Potsdamer Platz tornou-se o principal estaleiro da Europa. Hoje, é constituída por uma área comercial e cultural bastante movimentada, rodeada de arquitetura “modernista e futurista”.
Ao lado, o Sony Center destaca-se pela cúpula de vidro e aço e
pelos efeitos noturnos da luz.
Situada no que antes era a terra de ninguém, a Marlene Dietrich Platz presta
homenagem à atriz nascida em Berlim. O teatro da praça é o palco principal do Berlinale,
o Festival Internacional de Cinema de Berlim.
No metro da Potsdamer Platz há vampiros. Num outro ponto da cidade, na Rosa
Luxemburg-Platz, o Cinema Babylon tem uma programação regular de filmes clássicos e mudos acompanhados pela orquestra residente.
O Reichstag recuperou as suas funções em 19 de abril de 1999, após o
restauro do arquiteto britânico Norman Foster, que projetou uma cúpula de vidro
em referência à original de 1894.
O interior da cúpula do Reichstag. Na base e…
… no topo.
Berlim vista da cúpula.
Deutschland über alles, mas sem medos.
Berlim que anoitece.
“Quando assim deambulamos pela cidade (…), por vezes podemos acreditar que Hitler nunca existiu, que Auschwitz era apenas o nome alemão de uma obscura aldeia da Polónia e que o Muro de Berlim foi, afinal, fruto de alguma mente mais perturbada”. Francis Taylor, “O Muro de Berlim”, pág.528.



















































































































