domingo, 22 de fevereiro de 2026

Berlim III - Reunificação e Memória (1990 - 2026)

Durante a Guerra Fria, o Portão de Brandemburgo foi bloqueado pelo Muro de Berlim, tal como nos mostra esta fotografia tirada por mão amiga pouco antes da queda. Foto: António César Marques, 1988.


A linha divisória desapareceu, mas a sua marca permanece no chão.


A História do Muro é a História da Guerra Fria. Na noite de 13 de agosto de 1961 surgiu uma vedação de arame farpado em volta de Berlim Ocidental. Com o tempo, ergueu-se um muro de 155 km que manteve os habitantes da RDA acantonados durante 28 anos. 


Entre o nascimento da RDA (07.10.1949) e a construção do Muro (13.08.1961), estima-se que, pelo menos, 3 milhões de alemães tivessem fugido para o Ocidente, o que correspondia a 1/6 da população. O muro foi construído para estancar a fuga em massa, mas não impediu a vontade de fugir: entre 1961 e 1989, verificaram-se, pelo menos, 5 mil tentativas com êxito, 3 mil detenções e 140 mortes, vítimas diretas da política de “violação de fronteira”. Memorial das Vítimas.


O Memorial das Vítimas e o Centro de Documentação situam-se na Bernauer Strasse, uma rua ligada ao início e ao fim do muro. Aquando da sua construção, houve fugas pelas janelas de prédios localizados no lado leste, para a rua situada no lado ocidental. Foi aqui que começou a sua queda, em 9 de novembro de 1989.


Um posto de vigia junto ao muro.


“O saltador do muro” (Mauerspringer) é um memorial que relembra o salto para a liberdade de Conrad Schumann, em 15 de agosto de 1961 (dois dias após o encerramento da fronteira), no cruzamento da Brunnenstrasse com Bernauer Strasse (foto: Peter Leibing). O jovem guarda da RDA integrou-se na RFA. Trabalhou na Audi e constituiu família. Quando o muro caiu, decidiu regressar à terra natal, para visitar familiares e amigos. O que seria, aparentemente, um momento de alegria transformou-se num desconforto pessoal. Com o salto tinha deixado de ser um deles e nunca mais poderia voltar a sê-lo. Em 20 de junho de 1998, Schumann enforcou-se no pomar da sua casa.


Além da divisão política, da repressão fronteiriça e da separação de famílias, o muro despertou curiosidade


… e descontração.


Segmento do muro na atualidade, Bernauer Strasse. O estilo fluido e o sentido de humor facilitam a leitura da obra fundamental para compreender o contexto da estrutura física que marcou a Guerra Fria. O Muro de Berlim” (Frederick Taylor, 2007).


Leste – Oeste, Ponte Oberbaum.


A East Side Gallery é uma galeria ao ar livre na secção mais extensa do Muro (1.316m).


A pintura mais conhecida é do russo Dmitri Vrubel, que se inspirou na fotografia “O Beijo Fraternal”, do francês Régis Bossu, na qual Leonid Brejnev e Erich Honecker beijam-se calorosamente na boca (Comemoração do 30.º Aniversário da RDA, 1979), para produzir a obra “Meu Deus, ajuda-me a sobreviver a este amor mortal”. Esta saudação de “solidariedade e unidade” entre líderes socialistas, interpretada no Ocidente como “excesso de afeto”, é um ícone da Guerra Fria.


East Side Gallery, Berlim Impressionista.


Checkpoint Charlie era o posto fronteiriço mais conhecido do Muro de Berlim. O local ficou associado a episódios de tensão, a filmes de espionagem e a vistos de um dia.


Na Frierichstrasse, o ambiente misterioso da Guerra Fria deu lugar a um parque de diversões: a cabine de controlo é uma imitação (original no Museu dos Aliados) e há...


… “Safaris com Trabants”. Apesar de tudo, era inevitável passar por aqui.


O “Palácio das Lágrimas” (Tränenpalast) era um posto de fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental, na Estação Friedrichstraße, que funcionou entre 1962 e 1989. 


O nome deriva das separações emotivas que ocorreram à entrada do edifício entre alemães ocidentais e familiares residentes na RDA que não tinham autorização para cruzar a fronteira. O Palácio das Lágrimas é o local para compreender a micro-História e a devastação da separação.


O interior é um memorial sobre o contexto e as burocracias da época.


Um marco fronteiriço da RDA.


Literatura proibida no lado oriental: Der Spiegel e Playboy.


Nordbahnhof: exposição “Estações fronteiriças e estações fantasma na Berlim dividida”. 


Entre 1961 e 1989, durante a divisão da cidade imposta pelo muro, três percursos da rede pública de transportes de Berlim Ocidental distinguiam-se dos restantes. O metro das linhas U6 e U8 e o comboio urbano norte-sul atravessavam o subsolo de Berlim Oriental, para transportar passageiros de uma estação de Berlim Ocidental para outra. 


As carruagens deslocavam-se lentamente, sem parar, ao mesmo tempo que guardas armados vigiavam a sua passagem em plataformas desertas e mal iluminadas. A expressão “estação fantasma” (Geisterbahnhof) reflete a perspetiva ocidental de uma atmosfera estranha em território estrangeiro, enquanto do lado oriental a interdição visava impedir a fuga.


O nome Ständige Vertretung refere-se à “Missão Permanente” da RFA na RDA (em vez de Embaixada), que existiu de 1974 até 1990. A cervejaria-restaurante está decorada com fotos de políticos alemães da época.


Em 1961, surgiu o “Homem do Semáforo” (Ampelmännchen), o primeiro semáforo pedestre da RDA. Após a reunificação, Markus Heckhausen, um designer alemão ocidental, salvou o boneco do esquecimento ao fundar a empresa Ampelmännchen Ltd e fez fortuna com a venda de produtos ligados à marca. No centro de Berlim existem várias lojas, sendo a maior, precisamente, na Unter der Linder, n.º 35, onde o simpático peão luminoso nasceu. 


A Gendarmennmarkt Platz: acolhe a Catedral Alemã, a Catedral Francesa e o Konzerthaus, edifícios neoclássicos que sobreviveram à guerra.


O mundo dá muitas voltas. O antigo edifício Conselho de Estado da RDA (Staatsratsgebäude), que recebeu diplomatas e figuras internacionais, como Leonid Brejnev, Fidel Castro ou Mikhail Gorbachov, foi transformado numa Escola Internacional de Gestão e Tecnologia, uma business school como agora se diz. 

No interior, enquanto os alunos debatem estratégias de empreendedorismo e inovação, os visitantes interessados no trabalho de Walter Womacka (1925-2010) ...


... observam o magnífico vitral "Da História do Movimento Trabalhista Alemão" (1963/64), que se encontra na escadaria do salão de entrada.



Imune ao ambiente liberal, a obra preserva o seu valor artístico enquanto expressão do realismo socialista.


Um pequeno desvio na História do século XX para homenagear o rosto mais bonito da Antiguidade: Nefertiti, presente no Neues Museum, na Ilha dos Museus.



Walter Ruttmann filmou partes do “Berlim: Sinfonia de uma cidade” (“Berlin: Die Sinfonie der Großstadt”, Alemanha, 1927) na Potsdamer Platz. A praça foi destruída na 2.ª GM. 


Durante a Guerra Fria, a praça foi dividida pelo muro e tornou-se uma zona desolada.


Apos a reunificação, a Potsdamer Platz tornou-se o principal estaleiro da Europa. Hoje, é constituída por uma área comercial e cultural bastante movimentada, rodeada de arquitetura “modernista e futurista”. 


Ao lado, o Sony Center destaca-se pela cúpula de vidro e aço e pelos efeitos noturnos da luz.


Situada no que antes era a terra de ninguém, a Marlene Dietrich Platz presta homenagem à atriz nascida em Berlim. O teatro da praça é o palco principal do Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim.


No metro da Potsdamer Platz há vampiros. Num outro ponto da cidade, na Rosa Luxemburg-Platz, o Cinema Babylon tem uma programação regular de filmes clássicos e mudos acompanhados pela orquestra residente. 


O Reichstag recuperou as suas funções em 19 de abril de 1999, após o restauro do arquiteto britânico Norman Foster, que projetou uma cúpula de vidro em referência à original de 1894.


O interior da cúpula do Reichstag. Na base e…


… no topo.


Berlim vista da cúpula.


Berlim que anoitece.


“Quando assim deambulamos pela cidade (…), por vezes podemos acreditar que Hitler nunca existiu, que Auschwitz era apenas o nome alemão de uma obscura aldeia da Polónia e que o Muro de Berlim foi, afinal, fruto de alguma mente mais perturbada”. Francis Taylor, “O Muro de Berlim”, pág.528.