“Gosto tanto da Alemanha que até prefiro que existam duas”.
François
Mauriac (1885–1970), escritor francês, Prémio Nobel da
Literatura 1952.
Volksaufstandes, Praça da Revolta Popular. Em 1953, o governo da
Alemanha Oriental enfrentou uma crise política, que terminou com a imposição da
Lei Marcial e a presença dos tanques soviéticos. Enquanto a imagem no chão
retrata os manifestantes…
… o mosaico na parede externa do antigo Ministério da Aviação Nazi (atual
Ministério das Finanças) mostra uma visão do paraíso socialista. Em 7 de
outubro de 1949, a RDA foi oficialmente fundada neste edifício.
A monumental Karl-Marx-Allee é o local que melhor evoca atmosfera da
antiga capital da RDA. A avenida tem 2.3 km de extensão e foi construída entre
1952-60. Em estilo “bolo de casamento”, as Torres Frankfurt assinalam o seu
início na extremidade leste.
A “primeira rua socialista da Alemanha” destinava-se a alojar os altos
quadros do partido e a servir de palco para desfiles de demonstração de poder. Além
de apartamentos de qualidade, havia cinemas, restaurantes e cafés.
Cinema Kosmos, a 7.ª arte em contexto de conquista espacial.
Livraria Karl Marx (Karl Marx Buchhandlung). No final do filme “A
Vida dos Outros” (“Das Leben der Anderen”, Florian Henckel von
Donnersmarck, Alemanha, 2006), o ex-oficial da Stasi Gerd Wiesler vê o livro do
dramaturgo George Dreyman “Sonata para um Bom Homem” numa vitrina. A livraria fechou em 2008. Hoje, o espaço
está ocupado por gabinetes de arquitetura e design.
Chama-se Sibylle em homenagem à principal revista de moda da RDA. O café é um clássico da Karl Marx Allee e um museu informal sobre a sua construção. No interior, há uma história curiosa…
Em 3 de agosto de 1951, foi inaugurada uma Estátua de Estaline, doada
pela delegação da URSS para o 3.º Festival Mundial da Juventude e dos
Estudantes, naquela que, à época, denominava-se Stalinallee. Dez anos mais
tarde, na noite de 13 para 14 de novembro de 1961, em consequência da
“desestalinização” que varreu os países de Leste, a estátua foi removida e a avenida
foi renomeada.
Local onde se encontrava a Estátua de Estaline.
O operário Gerd Wolf, a quem coube a tarefa de desfazer a cabeça do “pai dos
povos”, contrariando instruções superiores, escondeu uma orelha e um
pedaço do bigode num bolso. Estas relíquias estão expostas no interior do Sibylle.
Strausberger Platz a meio da Karl Marx Allee.
Busto de Karl Marx na Strausberger Platz.
Café Moskau com o Sputnik no cimo, oferta do Embaixador da URSS.
Na entrada, o mosaico “A Vida do Povo da União Soviética”, (Bert
Heller, 1964).
O Kino International foi o principal cinema da RDA.
Final da Karl Marx Allee e início da Alexanderplatz, o centro de Berlim
Leste.
Casa dos Professores (Haus des Lehrers, 1962-64). Inspirado nos
muralistas mexicanos, o grande mosaico “A Nossa Vida” (Walter Womacka,
1964), com 800 mil azulejos, aborda diversos aspetos da RDA.
Pormenor de “A Nossa Vida”.
Casa das Viagens (Haus des Reisens, 1969-71), responsável
pela burocracia das deslocações.
Realce para o relevo de cobre “O Homem supera o Tempo e o Espaço"
(Walter Womacka, 1971). O título remete para o ideal socialista de tecnologia e
progresso, que oferecia à viagem a expansão do Universo.
Relógio das Horas do Mundo (Weltzeituhr, 1969), em estilo futurismo
cósmico, mostra, atualmente, os fusos horários de 148 cidades do mundo. Até
1989, algumas foram omitidas por razões políticas, como Seul, Cidade do Cabo ou
Telavive.
No centro da Alexanderplatz, a Torre da Televisão (Fernserturm, 1965-69,
365m), o símbolo do poder tecnológico da RDA. Dentro da esfera Sputnik, há um
posto de observação que permite alargar o horizonte da cidade até 40 km. Não
subi à torre, mas é impossível imaginar o céu de Berlim sem a sua presença.
A Antiga Biblioteca de Frederico, rei da Prússia, foi destruída na 2.ª GM e permaneceu em ruínas
até ser restaurada pela RDA, em 1968. Ao centro, existe o vitral “Lenin na
Alemanha” (Frank Glaser, 1968) que passa despercebido quando observado do
exterior.
No interior, vê-se Lenin, Marx e Engels na sala de leitura da Faculdade de Direito da Universidade Humboldt. A obra foi
realizada para comemorar a visita de Lenin em 1895 e retrata-o em conversa com
operários e intelectuais, enquanto aponta o caminho a seguir.
Os meus primeiros contactos com a RDA ocorreram nos anos 80, através de
nadadoras com corpo de homem e das piruetas artísticas da Katarina Witt.
A uni-las, um espírito competitivo indomável, consagrado de ouro ao peito e na
audição do Auferstanden aus Ruinen (“Erguidos das Ruínas”), porventura, o hino
mais bonito do mundo. O Museu da RDA (DDR Museum) permite recuar no
tempo e conhecer o quotidiano do país, para além das vitórias
desportivas, hoje diminuídas pelo uso e abuso de químicos.
Através de um simulador, é possível conduzir um Trabant pelas ruas de
Berlim Leste e cantarolar a letra dos Mão Morta “Cá vou eu no meu trabi…”
A escassez de metais levou à criação do Duroplas, uma mistura de
resina sintética, algodão, papel e químicos. Mas, nem tudo era mau: era
resistente à corrosão e de fácil manutenção.
Havia de tudo, mas nem sempre. A economia mais desenvolvida dos países
de Leste enfrentou problemas permanentes: burocracia, escassez e ineficiência. Contudo,
também promoveu, para facilitar a vida aos trabalhadores, a produção de alimentos
de confeção rápida, como as leguminosas Tempo.
Em diagonal pela vida pública: a educação assegurada, a ausência de
desemprego, as atividades dos pioneiros, o valor do silêncio e da evasiva, o
prazer da jardinagem… e a atração pelo nudismo!
Ao contrário da URSS, que apenas tinha uma foice e um martelo na bandeira, a
RDA acrescentava um compasso ao martelo e ao anel de centeio. A elite
intelectual estava integrada com os operários e os camponeses para garantir a
viabilidade económica.
O primeiro Secretário do Partido Walter Ulbritch foi destituído do cargo em
1971. Para que não houvesse dúvidas sobre quem mandava, no dia do seu
aniversário, foi fotografado de chinelos e roupão. Um novo homem irá tomar
conta do país quase até ao fim: Erich Honecker.
A maquete representa o edifício arquitetónico mais estimado da RDA. O Palácio
da República acolhia o parlamento, um centro cultural, restaurantes e cafés.
No salão de entrada havia 9.873 lâmpadas ultramodernas. O Palácio foi encerrado em 1990, devido à presença de amianto, e foi demolido em 2009, em consequência de uma decisão polémica do Parlamento Federal Alemão. Fonte da foto: https://www.bundestag.de/
Um serão em Berlim Leste. Reconstrução mobiliada de um plattenbau
(apartamento pré-fabricado). Ao centro, uma televisão sintonizada nos anos 80:
notícias no Aktuelle Kamera e desenhos animados com Unser
Sandmännchen. Este é o mais antigo programa de tv em exibição. Deita as
crianças alemãs desde 1959.
Na sala de estar, a pintura “Na Praia” (Walter Womacka, 1962), a obra mais reproduzida na RDA. No Mar Báltico, um jovem casal sonha com o futuro.
Sigmund Jähn (1937-2019) foi o primeiro alemão no Espaço (1978).
Em “Goodbye, Lenin!” (Wolfgang Becker, Alemanha, 2003), o cosmonauta era
o herói de infância de Alex. O filme tornou-se a expressão
cinematográfica da Ostalgie, um conjunto de memórias inofensivas ligadas ao
desaparecimento de aspetos da vida quotidiana da RDA.
O único jogo de futebol entre as duas Alemanhas disputou-se em Hamburgo, no
Campeonato do Mundo de Futebol de 1974. Na fase de grupos, a RDA venceu a RFA
por 1-0, com um golo de Jürgen Sparwasser. Nestes matraquilhos de uma só
baliza, apenas é possível um vencedor.
As temáticas da vigilância e repressão são abordadas no DDR Museum, mas serão desenvolvidas nas visitas à Prisão Hohenschönhausen e ao Museu Stasi.
Em complemento ao guia do DDR Museum. Em “Para Lá do Muro” (2025),
a historiadora Katja Hoyer (nascida na ex-RDA) defende que, no meio da
opressão e das dificuldades frequentes, o país era mais dinâmico do que a
caricatura retratada pelo Ocidente. Na net, o livro foi bem recebido no
universo anglo-saxónico, mas foi alvo de críticas por alguns dos seus
congéneres alemães, por pintar demasiado “rosa” um país demasiado “cinzento”. O
livro insere-se num contexto de duas visões complementares e antagónicas sobre
a interpretação da História da RDA. De um lado, os “normalizadores” enfatizam a
vida quotidiana (trabalho, apoios sociais e lazer) e uma sociedade de
acomodação pragmática; do outro, os “totalitários” argumentam que o Estado era
dominado pelo Partido e pela Stasi e que não havia espaço para escolhas
individuais. Para os historiadores, o desafio reside em integrar as diferentes
dimensões analíticas sem que uma anule a outra. Para o cidadão comum, a questão
é outra: aceitaria o bem-estar que o Estado lhe proporcionava para viver num
país fechado, em que nada escapava à vigilância?
Para colecionadores de material vintage, ainda é possível encontrar na net uma joia literária ilustrada com fotografias da
época: “A RDA apresenta-se” (Panorama DDR - Agência para o estrangeiro,
1982).
Em 1951, o Ministério da Segurança do Estado (Ministerium für
Staatssicherheit, conhecido por Stasi) reabriu o antigo “campo especial”
soviético para transformar Hohenschönhausen
na principal prisão política da RDA.
O local estava situado em Lichtenberg, um bairro de acesso restrito,
não assinalado nos mapas e afastado do centro de Berlim. Estação Lichtenberg, com uma fotografia de 1968.
Após a reunificação, Erich Mielke (à direita), o Diretor da Stasi entre 1957 e 1989, foi o último dos 11 mil detidos em Hohenschönhausen. Em 1994, a prisão foi aberta ao público e tornou-se na herança mais sombria da RDA em contraponto à colorida Ostalgie.
No cinema, a prisão Hohenschönhausen foi retratada numa cena inicial do filme
“A Vida dos Outros”, na qual o agente da Stasi Gerd Wiesler demonstra as
suas técnicas de interrogatório. Embora o filme utilize vários cenários reais,
este não é um deles. O Diretor recusou-se a dar autorização para filmar, uma
vez que não existem casos semelhantes ao do protagonista, em que um oficial da
Stasi tenta salvar a sua vítima. Independentemente da história fictícia
(mas, dentro de um contexto real), o filme é um testemunho da presença
sufocante da Stasi no quotidiano dos alemães de leste e da desumanização do
regime.
Pode-se visitar livremente a prisão, mas é preferível investir numa visita
guiada por antigos prisioneiros e/ou licenciados/doutorados em História. A
minha foi orientada por Volkmar Schutter, um historiador nascido na ex-RDA. A
visita é precedida por um filme de contextualização.
O Submarino, um conjunto de celas no porão do edifício central
herdadas do tempo soviético.
As condições: pequenez, isolamento, humidade, mau arejamento e escuridão.
A garagem era o local onde os prisioneiros chegavam em “carrinhas de
distribuição alimentar”. Os ocupantes nunca viam o exterior nem sabiam onde
estavam. Quando saiam do interior escuro, era projetada uma luz branca sobre o
rosto para forçar a cegueira momentânea e a confusão.
Corredor com celas individuais na nova ala construída nos anos 60. Além da
confissão (forçada ou não), o principal objetivo dos guardas era a quebra
psicológica do prisioneiro, através do isolamento, da privação do sono, da
intimidação, da incerteza e da chantagem sobre a família. Ninguém sabia quem
estava preso, pois quando um indivíduo era levado para interrogatório, não
havia permissão para circular no corredor.
Uma das 200 celas individuais.
Uma das 100 salas de interrogatórios.
As "Gaiolas de Tigre" onde os prisioneiros hospitalizados podiam
apanhar ar fresco, com um vislumbre do céu, através dos telhados de arame acima
do muro.
O Museu Stasi está instalado no edifício-sede da polícia secreta. Alberga exposições sobre o funcionamento operacional e administrativo, tecnologia de espionagem, propaganda comunista, movimentos de resistência e repressão sobre os dissidentes. A cobertura exterior na porta de entrada não permitia identificar quem chegava/saía do prédio.
No salão de entrada, bandeiras e estátuas de Karl Marx e Felix Dzerjinski.
A Stasi em números. Em 1989, quando o regime caiu, tinha 91.000
funcionários, 180.000 colaboradores informais, 20.000 telefones sob escuta,
intercetava diariamente 90.000 cartas e possuía um arquivo com 180 km de dados
sobre a população. Os “colaboradores informais” (Inofizielle Mitarbeiter) eram
os mais odiados, porque, ao contrário dos oficiais e do pessoal administrativo,
relatavam atividades da própria família e dos amigos, sem que os envolvidos
soubessem.
Markus Wolf foi um oficial lendário da Stasi. Foi o responsável pela
atividade no estrangeiro.
Markus Wolf infiltrou Günter Guillaume (ao centro) como secretário de Willy
Brandt (à direita), chanceler da RFA. A descoberta deste espião da RDA
levou à queda do governo de Brandt, em 1973.
Identificação de um indivíduo corrompido pela decadência ocidental.
Aparelhos para abrir correspondência e detetar caligrafia invisível
sem deixar rasto de violação de correspondência.
A Stasi não se limitava a observar, ouvir e ler. Também gostava de
cheirar. Para um visitante já experimentado com outros espaços museológicos
semelhantes, este método é o mais surpreendente. Durante os interrogatórios, os
detidos eram obrigados a colocar as mãos debaixo das pernas, em contacto direto
com a cadeira almofadada. No interior do assento, havia um pano de algodão que
absorvia o suor dos inquiridos. No final, o odor era catalogado e guardado num
frasco de vidro.
Erich Mielke vivia em Wandlitz, nos arredores de Berlim, num condomínio fechado destinado à elite política da RDA. Contudo, tinha um apartamento no Ministério da Segurança para reuniões de trabalho e uma área privada de descanso. O escritório foi preservado com o mobiliário dos anos 60.
Um dos objetos de destaque é a mala vermelha onde guardava as
informações sensíveis dos camaradas do partido, incluindo as
relativas ao Secretário-Geral do Comité Central e Presidente do Conselho de Estado,
Erich Honecker.
“Goodbye, Lenin!” na sala de jantar.
“Stasiland”, Anna Funder, 2003. Tendo como base um conjunto de
entrevistas com pessoas ligadas à RDA, por
trauma ou lealdade, a autora entrelaça um conjunto de olhares sobre a vida na Alemanha Oriental. Em 2019, Funder regressou ao tema, num longo
e amargurado ensaio intitulado “Stasiland Now” (The Monthly, revista
australiana), para concluir que, 30 anos após a reunificação, os antigos
agentes da Stasi adaptaram-me e passaram impunes, enquanto as vítimas esperam
reconhecimento e lutam contra o esquecimento.
Nos anos 50, enquanto Berlim Oriental procurava um “novo amanhã”, em Berlim
Ocidental nasceu um projeto arquitetónico inovador, percursor dos grandes “templos
de consumo” da atualidade, que juntava compras, gastronomia, escritórios,
cinema, lazer e hotelaria. O edifício central do complexo é o Bikinihaus.
Perto da Bikini Berlin e do Zoo, o início da Kurfürstendamm. Durante os 28 anos em que Berlim esteve dividida pelo Muro, se a Alexanderplatz foi o centro da Berlim Leste, Kurfürstendamm foi o centro da Berlim Ocidental. Consumo, luxo e preços proibitivos. Mais perigosos para a carteira do que os carteiristas do metro.


































































