Quando partires de regresso a Ítaca, faz votos para que seja longo o caminho (K. Kavafis)
domingo, 5 de fevereiro de 2023
Nicósia Sul
Nicósia Norte
"Zona Tampão" ou "Linha Verde"
No
domingo de manhã, partimos, pela primeira vez, para a parte norte. Depois do
controlo grego, atravessamos a “Zona Tampão”, em que apenas são visíveis
edifícios abandonados, arame farpado e indicações em grego, turco e inglês, com
informações e proibições, incluindo fotografar! Num primeiro olhar, o que chama
de imediato à atenção é o conjunto de prédios devolutos, testemunhas
silenciosas da frente de combate, antigas propriedades de gentes que tiveram de
partir à pressa, para sempre. Apenas os soldados da ONU e os gatos podem
circular livremente pela “Linha Verde”. Locais e forasteiros continuam o seu
caminho em linha reta em direção ao próximo controlo. No fim da “Terra de
Ninguém”, chegamos ao posto turco. A verificação da documentação é feita com
celeridade e sem questões. Sejam bem-vindos à República Turca do Norte do
Chipre (RTNC), país pária internacional, apenas reconhecido pela Turquia.
Em diagonal sobre o conflito cipriota
Chipre situa-se no Mediterrâneo Oriental, a 70 km quilómetros da Turquia e a 100 km da Síria. Cerca de 840.000 habitantes vivem na parte meridional (58% do território), controlada pelo governo cipriota grego. Perto de 300.000 habitantes vivem na parte setentrional (36% do território), sob administração cipriota turca. Como se explica a divisão da ilha em duas zonas distintas? Por que razão ela é disputada por dois países? Por que motivo o Reino Unido continua a possuir bases militares no seu território?
Para responder a estas questões é necessário recuar no tempo. Chipre é povoado por gregos desde 1.400 a.C., mas foram quase sempre dominados por potências exteriores. Em 1571, os turcos conquistaram a ilha aos venezianos e mantiveram-na até 1878, ano em que a sua administração foi cedida à Inglaterra, por esta impedir o expansionismo russo sobre o Bósforo e os Dardanelos. Com a eclosão da 1.ª Guerra Mundial e a decisão dos Otomanos de apoiar os Impérios Centrais, tornou-se oficialmente território britânico. A partir dos anos 30, os cipriotas gregos reivindicaram a Enósis, a união com a Grécia. Os cipriotas turcos, que representavam menos de 20% da população, responderam com a Taksim, a pretensão de unir a parte norte de Chipre à Turquia. Na gestão dos conflitos estavam os britânicos, que viam a ilha como um “porta-aviões” para o controlo do Médio Oriente. Para se livrarem do problema nacionalista sem deixarem de ter os pés no território, em 1960, concederam a independência a Chipre, tendo assegurado as bases militares de Akrotiri e Dhekelia. A violência intercomunitária continuou nos anos seguintes e atingiu o ponto de rutura em meados dos anos 70.
Em 15 de Julho de 1974, o Presidente Makarios foi deposto num golpe de Estado, com o apoio da Grécia. Temendo a anexação pelo vizinho, a Turquia reagiu cinco dias depois: invadiu e ocupou a região norte. Seguiu-se uma limpeza étnica em ambos os lados, com mortes, desaparecidos e fugas de populações: 200.000 cipriotas gregos foram obrigados a deixar o norte para o sul; 45.000 cipriotas turcos fizeram o mesmo em sentido contrário. A mistura étnica que havia por toda a ilha chegou ao fim e a separação geográfica consumou-se. Foi imposta uma «Linha Verde», controlada pela ONU, com uma extensão de 180 km, que se tornou a fronteira que divide o território e a capital: a turco-cipriota Lefkoşa, a norte; e a greco-cipriota Lefkosia, a sul. Em 1983, deu-se a autoproclamação da República Turca do Norte do Chipre. Em 2003, foi aberta a primeira travessia na «Linha Verde», após quase 30 anos de ausência de circulação entre os dois lados. Em 2004, o Plano Kofi Annan, que previa a criação de um Estado Federado, foi rejeitado por 68,58% da população (75,83% dos cipriotas gregos votaram contra; 64,90% dos cipriotas turcos votaram a favor). Nesse ano, Chipre aderiu à UE como um todo, mas as normas europeias, por enquanto, ficam à porta do norte. O posto de controlo pedonal na Rua Ledra, gerido pelos cipriotas (gregos e turcos) e pelas Nações Unidas, tornou-se o símbolo de um conflito que aguarda solução e da última capital dividida da Europa.



































































