domingo, 5 de fevereiro de 2023

Nicósia Sul

 

Praça da Liberdade e início da Ledra, a movimentada rua pedonal e comercial que conduz, 
pelo centro histórico sul, até à "Linha Verde". 

A solidão matinal na rua Ledra. 
Um vendedor aguarda os primeiros clientes da raspadinha!

Proteção solar na Ledra.

Pausa para café no Pieto Galeria Cafe, Ledra.

Junto à fronteira, Ledra.

As novas tendências de moda na Ledra. 
O manequim da esquerda está com problemas...

Fundação Cultural do Banco de Chipre (FCBC).

Atividade de numismática na FCBC.
Tal como um ofício de detetive, a partir de indícios ténues, recolha de elementos que possam enquadrar, no espaço e no tempo, uma moeda e identificar as suas principais caraterísticas.

Atividade artística na FCBC.
Baseado no trabalho de um casal naturalista britânico, que doou o seu herbanário à Fundação, realização de uma atividade de aplicação da cor natural em panos de linho.

O efeito cromático final.

Exposição de fotografia sobre a "Dieta Mediterrânica", na FCBC.
Entre Portugal e o Chipre não há quatro mil quilómetros de distância. Partilhamos as frutas, os legumes, o pão, o azeite e o vinho.

O limão amargo é o fruto simbólico de Chipre 
que deu um título a uma obra de Lawrence Durrell. 

Vinho cipriota Agios Onioufrous.

Largo da Igreja Panagia Phaneromeni, a maior e mais importante igreja ortodoxa.
A bandeira da Grécia, tal como a da Turquia no outro lado, está sempre presente, para afirmar a herança cultural, linguística e religiosa do sul de Chipre.

Catedral Agios Ioannis, junto à Fundação Makarios.

Keo, uma cerveja grega do diabo!

Coleção de posters no Centro de Artes CVAR.

Peddy-paper organizado por uma técnica do CVAR.

Pelas ruas de Nicósia sul I.

Pelas ruas de Nicósia sul II.

Pelas ruas de Nicósia sul III.

Pelas ruas de Nicósia sul IV.

Mesquita Taht-el-Kale.

No interior da Igreja Ortodoxa Agios Kassianos.

No interior da Igreja Ortodoxa Panagia Khysaliniotissa.

Livraria-Café Erma.

Praça da Liberdade, início da parte nova de Nicósia sul.

Nicósia Norte

 

Depois de atravessar a fronteira, entra-se numa nova realidade cultural e política. A língua e a bandeira são as primeiras marcas que assinalam a diferença.

Bairro Arabatmet onde vivia a elite otomana.

A Igreja de N.ª S.ª de Tiro pertence à comunidade arménia.
Os arménios foram arrastados pelo conflito cipriota de 1974 e abandonaram as suas propriedades no bairro norte. Atualmente, cerca de 3.500 arménios vivem em Nicósia Sul e constituem uma minoria religiosa e linguística com proteção legal.

Mesquita Arabatmet. A religião é outra das diferenças entre as duas comunidades: norte, maioria muçulmana; sul, maioria cristã ortodoxa. As "chamadas para a oração", feitas a partir de gravações e divulgadas através de altifalantes nos topos dos minaretes, são uma forma permanente de afirmação territorial para o outro lado... 

Praça Ataturk. Centro de poder de todos os povos que por ali passaram: os venezianos trouxeram a Coluna de Salamina, os otomanos instalaram quartéis militares, os ingleses construíram o tribunal.

Praça Ataturk. Uma pausa para café e um par de horas de caminho permitem assinalar um modo de vida mais tranquilo e menos cosmopolita. Além disso, o espaço público é dominado pela presença masculina e a mulher tem um papel mais recatado. A este facto não é alheio a recente emigração de populações conservadoras da Anatólia, incentivadas pelo Presidente Erdogan, para aumentar o peso demográfico do norte. Esta prática é do desagrado das autoridades do sul e dificulta uma eventual solução política para o território.

Praça Ataturk. Em 1953, a partir da base onde se encontram as Armas da Reais de Inglaterra, o último governador britânico anunciou a coroação de Elisabete II.

O centenário bairro social Samanbahçe, recém restaurado.

Bairro Samanbahçe II.

Uma parte considerável da zona histórica turca está degradada.

Zona histórica turca degradada. 
À noite, nem sempre há eletricidade, o que dificulta a orientação.

"El Sabor Latino", restaurante português de Nicósia norte!

Efes, cerveja turca.

Embora muitos locais junto à fronteira aceitem euros, a economia funciona com liras turcas.

Manequins manetas do norte.

A Catedral Sta. Sofia era a maior igreja gótica de Nicósia. Em apenas seis dias, em 1570, foi convertida na Mesquita Selimiye. Atualmente, está fechada para obras, mas continua, cinco vezes ao dia, a chamar os fiéis para a oração, para alimentar a irritação a sul... Os cipriotas gregos questionam: como é possível a União Europeia patrocinar o restauro de um edifício localizado num país que não é reconhecido por ninguém e que tem um conflito aberto com um Estado membro? 

Exterior do Buyuk Han, a Grande Pousada que acolhia os comerciantes do Império Otomano.

Interior do Buyuk Han. 
Após vários anos de abandono, hoje é um centro de artesanato e um espaço de restauração.

Interior do Buyuk Han II.

Beber um café ou uma cerveja enquanto se observa o ritmo do norte.

Os recipientes e as toalhas são os elementos base dos hamam (banhos turcos).

Um cuidador de gatos em Nicósia Norte.

Baclava - folhado com mel, água de rosas, frutos secos e pistácios.

Pastelaria turca no mercado coberto Bandabulya.

Arasta, mercado ao ar livre.

Um belo vestido para adeptos da sensual "Dança do Ventre", Arasta.

Últimas novidades no Arasta! 
Por 15€ ou 300 Liras Turcas pode-se comprar uma t-shirt "original" do Al-Nasr.

Rustem: livraria, café/restaurante e local de eventos. Aberto desde 1937.

"Zona Tampão" ou "Linha Verde"

No domingo de manhã, partimos, pela primeira vez, para a parte norte. Depois do controlo grego, atravessamos a “Zona Tampão”, em que apenas são visíveis edifícios abandonados, arame farpado e indicações em grego, turco e inglês, com informações e proibições, incluindo fotografar! Num primeiro olhar, o que chama de imediato à atenção é o conjunto de prédios devolutos, testemunhas silenciosas da frente de combate, antigas propriedades de gentes que tiveram de partir à pressa, para sempre. Apenas os soldados da ONU e os gatos podem circular livremente pela “Linha Verde”. Locais e forasteiros continuam o seu caminho em linha reta em direção ao próximo controlo. No fim da “Terra de Ninguém”, chegamos ao posto turco. A verificação da documentação é feita com celeridade e sem questões. Sejam bem-vindos à República Turca do Norte do Chipre (RTNC), país pária internacional, apenas reconhecido pela Turquia.

A escassos metros da fronteira, Nicósia Sul.

"Linha Verde", Nicósia Sul.

Esplanada de café interrompida pela "Linha Verde", Nicósia Sul.

Moda "Linha Verde"?

Vagão de comboio que funcionou como escritório das ONU na "Zona Tampão".
Em baixo, as resoluções das Nações Unidas que não foram cumpridas pela Turquia.
NIMAC - Nicosia Municipal Arts Center, Nicósia Sul.

À entrada de uma habitação, Nicósia Sul.

"Zona Tampão" ou "Linha Verde" entre Nicósia Grega/Sul e Nicósia Turca/Norte.

Apenas os gatos e os soldados da ONU podem circular livremente pela "Zona Tampão".

Travessia da "Zona Tampão" entre os dois postos fronteiriços.

A Igreja de Santa Cruz situa-se na "Zona Tampão". Pertence à minoria cristã católica de Chipre e está sob jurisdição eclesiástica do Patriarcado Latino de Jerusalém. Nicósia Norte.

Prédios abandonados, Nicósia Norte.

Em diagonal sobre o conflito cipriota

Fonte: Al-Jazeera, AFP, UN (adaptado).

Chipre situa-se no Mediterrâneo Oriental, a 70 km quilómetros da Turquia e a 100 km da Síria. Cerca de 840.000 habitantes vivem na parte meridional (58% do território), controlada pelo governo cipriota grego. Perto de 300.000 habitantes vivem na parte setentrional (36% do território), sob administração cipriota turca. Como se explica a divisão da ilha em duas zonas distintas? Por que razão ela é disputada por dois países? Por que motivo o Reino Unido continua a possuir bases militares no seu território?

Para responder a estas questões é necessário recuar no tempo. Chipre é povoado por gregos desde 1.400 a.C., mas foram quase sempre dominados por potências exteriores. Em 1571, os turcos conquistaram a ilha aos venezianos e mantiveram-na até 1878, ano em que a sua administração foi cedida à Inglaterra, por esta impedir o expansionismo russo sobre o Bósforo e os Dardanelos. Com a eclosão da 1.ª Guerra Mundial e a decisão dos Otomanos de apoiar os Impérios Centrais, tornou-se oficialmente território britânico. A partir dos anos 30, os cipriotas gregos reivindicaram a Enósis, a união com a Grécia. Os cipriotas turcos, que representavam menos de 20% da população, responderam com a Taksim, a pretensão de unir a parte norte de Chipre à Turquia. Na gestão dos conflitos estavam os britânicos, que viam a ilha como um “porta-aviões” para o controlo do Médio Oriente. Para se livrarem do problema nacionalista sem deixarem de ter os pés no território, em 1960, concederam a independência a Chipre, tendo assegurado as bases militares de Akrotiri e Dhekelia. A violência intercomunitária continuou nos anos seguintes e atingiu o ponto de rutura em meados dos anos 70. 

Chipre, 1960. Declaração de independência. Museu Municipal de História - Fundação Leventis.
Makarios III, ao centro, primeiro Presidente e Patriarca da Igreja Ortodoxa Cipriota.

Em 15 de Julho de 1974, o Presidente Makarios foi deposto num golpe de Estado, com o apoio da Grécia. Temendo a anexação pelo vizinho, a Turquia reagiu cinco dias depois: invadiu e ocupou a região norte. Seguiu-se uma limpeza étnica em ambos os lados, com mortes, desaparecidos e fugas de populações: 200.000 cipriotas gregos foram obrigados a deixar o norte para o sul; 45.000 cipriotas turcos fizeram o mesmo em sentido contrário. A mistura étnica que havia por toda a ilha chegou ao fim e a separação geográfica consumou-se. Foi imposta uma «Linha Verde», controlada pela ONU, com uma extensão de 180 km, que se tornou a fronteira que divide o território e a capital: a turco-cipriota Lefkoşa, a norte; e a greco-cipriota Lefkosia, a sul. Em 1983, deu-se a autoproclamação da República Turca do Norte do Chipre. Em 2003, foi aberta a primeira travessia na «Linha Verde», após quase 30 anos de ausência de circulação entre os dois lados. Em 2004, o Plano Kofi Annan, que previa a criação de um Estado Federado, foi rejeitado por 68,58% da população (75,83% dos cipriotas gregos votaram contra; 64,90% dos cipriotas turcos votaram a favor). Nesse ano, Chipre aderiu à UE como um todo, mas as normas europeias, por enquanto, ficam à porta do norte. O posto de controlo pedonal na Rua Ledra, gerido pelos cipriotas (gregos e turcos) e pelas Nações Unidas, tornou-se o símbolo de um conflito que aguarda solução e da última capital dividida da Europa.

Fronteira na Rua Ledra, Nicósia.