sábado, 5 de setembro de 2020

Notas de uma viagem a Santa Maria

1.Viajar para os Açores em tempos de covid-19. Num ano normal comprava-se o bilhete de avião e o assunto estava arrumado. Em 2020, a pandemia impôs procedimentos obrigatórios como se fôssemos viajar para um território excêntrico da Atlântida. Para evitar a perda de tempo no aeroporto (a preencher papéis e inquéritos) e o isolamento profilático (caso optasse por fazer o teste covid-19 à chegada), decidi percorrer o circuito normativo ainda no continente. Depois de ter marcado o voo, agendei o teste covid-19 num laboratório acreditado pelo Governo Regional, fiz a colheita 48 horas antes da partida, respondi a um questionário da Autoridade de Saúde Regional, preenchi uma declaração de entrada no arquipélago e uma outra para deslocação inter-ilhas, marquei um novo teste covid-19 ao 6.º dia no Centro de Saúde de Vila do Porto e imprimi a papelada para apresentá-la à chegada. Não está em causa o controlo das entradas da região nem tenho competência para comentar a obrigatoriedade de um segundo teste. Porém, as autoridades locais podiam concentrar a informação pessoal num único ficheiro digital e escusavam de repetir perguntas em diferentes documentos em papel. Ultrapassadas as tendas sanitárias e a burocracia à saída dos aeroportos, somos devolvidos à tranquilidade de sempre. É isso que conta. Para minha felicidade, Santa Maria esteve disponível quase só para mim.


Saída do aeroporto, 1.º dia, 07H00.

Como o meu 6.º dia no arquipélago aconteceu num domingo e o Centro de Saúde estava fechado, fiz o teste covid-19 numa tenda no exterior do aeroporto.

2.Uma breve diagonal. É a ilha mais meridional do arquipélago. Dizem que é a menos açoriana, sem fenómenos de vulcanismo activo, vacas leiteiras a pincelar a paisagem e mormaço a encharcar a roupa. Em substituição, há praias de areia branca, gado para produção de carne e promessas de dias de Verão sem chuva e muita humidade. No Pico Alto, podemos dividi-la em duas: para Este, montanhas e verde exuberante; para Oeste, planícies e amarelo ferrugem. Foi a primeira a ser colonizada, mas é das últimas a ser descoberta pelos forasteiros. Vila do Porto, sede do único concelho, tem uma rua principal com três nomes e umas ruelas secundárias na rectaguarda. Dada a pequenez, toda a gente se conhece e se encontra rua acima ou rua abaixo. O casario branco remete para a origem geográfica dos primeiros povoadores. Do Alentejo e Algarve vieram a cal, as chaminés e as barras de cores que diferenciam as cinco freguesias. Há algum movimento no estio e muita quietude nas restantes épocas do ano. Animação breve e isolamento prolongado, sentimentos que fazem, afinal, Santa Maria uma ilha tão açoriana como as outras.

Praia dos Lobos, Anjos, costa Norte. Local de desembarque dos primeiros colonos nos Açores, em 1439, liderados pelo 1.º Capitão-Donatário Gonçalo Velho Cabral. 

Jazidas de fósseis marinhos (7 a 5 ma), Pedreira do Campo, arredores de Vila do Porto, costa Sul. Antes de passar por aqui, recomenda-se uma visita ao Centro Ambiental Dalberto Pombo, para entender o contexto natural da ilha (geográfico, geológico e ambiental).

3. Os anos dourados. Quem aterra em Santa Maria não pode deixar de reparar na grandiosidade do aeroporto e nos edifícios que se encontram no exterior. Em 1944, os americanos iniciaram a construção da pista e de diversas infraestruturas de apoio: redes viárias, saneamento básico, central elétrica, bairro habitacional e equipamentos sociais (hotel, piscinas, cineteatro, hospital…). Adormecida no tempo, de repente, Santa Maria tinha acordado para o mundo. Entre 1950 e 1970, o aeroporto desempenhou um papel central nas ligações entre a Europa e a América, quando ainda não havia autonomia para atravessar o Atlântico. Todas as grandes companhias faziam escala na ilha. Por lá passavam regularmente estrelas da política, do cinema, do desporto, da música. No hotel, havia uma orquestra permanente e organizavam-se festas de acesso restrito. Foram os anos dourados de Santa Maria. Com o desenvolvimento tecnológico da aviação e a afirmação estratégica das Lajes, o aeroporto perdeu importância e mais de metade da população da ilha emigrou. Hoje, é um espaço sobredimensionado para as necessidades actuais, reduzido às ligações diárias a Ponta Delgada e às semanais a Lisboa. Contudo, nem tudo se perdeu. A gestão do controlo de uma vasta parte do espaço aéreo do Atlântico Norte é realizada a partir da Estação de Comunicações Oceânica de Santa Maria. Quanto ao futuro, se os planos do porto espacial de lançamento de satélites forem concretizados pode ser que o aeroporto e a ilha venham a ter uma nova vida.

Para os interessados na aviação: https://www.youtube.com/watch?v=ast6gKn0tJc (documentário “Santa Maria Connetion”, Eberhard Schedl, 56:18) e https://roteirolpaz.wixsite.com/welcome (roteiro cultural e histórico do aeroporto de Santa Maria, Associação LPaz).
Quanto aos planos do porto espacial: “Desta ilha vê-se o céu”, Virgílio Azevedo, Revista do Expresso, 08/12/2018. Informações e polémicas poderão ser acompanhadas aqui: https://www.ptspace.pt/pt-pt/ e https://santaespacomaria.com/

Amália Rodrigues no aeroporto de Santa Maria, 1950. Fonte: www.ana.pt

Cineteatro em remodelação, bairro do aeroporto. Neste local actuou Frank Sinatra, em 14.06.1945. Foi a sua estreia na Europa, com 29 anos, no âmbito de uma digressão internacional, para os militares norte-americanos, durante a 2.ª Guerra Mundial. 
Fonte: “Quando Sinatra cantou nos Açores”, Pedro Barros Costa, p.70-76, Revista LPaz, vol. 3, Dezembro 2017. O artigo completo pode ser consultado aqui: https://issuu.com/associacaolpaz/docs/revista_lpaz_3_issuu 
Frank Sinatra só voltaria a Portugal no final da carreira, aos 76 anos, para um único espectáculo no Estádio das Antas, em 07.06.1992.

Casa do Director do Aeroporto de Santa Maria, projectada na década de 50 pelo arquitecto Keil do Amaral. Em 2019, foi anunciado que seria a futura sede da Agência Espacial Portuguesa – Portugal Space. Observada do portão, parece que a obra ainda não arrancou.

Quonset huts, barracas cilíndricas em metal. Ainda existem algumas espalhadas ao longo da estrada do aeroporto, acompanhadas de bocas-de-incêndio feitas em St. Louis, Missouri. A maior parte destas “casas americanas” está em mau estado de conservação e aguarda restauro.

4. Mergulhos secos. O mergulho é uma das principais atracções de Santa Maria. Nas águas costeiras habitam tubarões, cachalotes, tartarugas, golfinhos, jamantas, entre outra fauna marítima. É conhecida e amplamente divulgada a enorme riqueza dos mares dos Açores. Em outras viagens pelo arquipélago, nunca fui tentado pelo oceano. Sempre gostei de estar rodeado pelo mar, mas sempre gostei mais de estar em terra. Na preparação da viagem, depois de ter lido algumas reportagens, decidi equacionar uma expedição às Formigas. Era uma oportunidade única para conhecer uma das mais desconhecidas parcelas do território nacional e observar in loco a vida animal. No caso das jamantas, seria, provavelmente, o contacto mais próximo que eu teria com um ser “extraterrestre”! Depois do entusiasmo, começaram a pairar dúvidas no ar…. Sem qualquer conhecimento e experiência de mergulho, fazia sentido uma viagem destas para mim? E apenas recorrendo ao snorkeling, seria possível observar as jamantas? E caso as questões anteriores tivessem uma resposta negativa, valeria a pena fazer uma excursão em alto mar para ver oito ilhéus e um farol? Assim que entrei em contacto com uma empresa especializada, rapidamente a ideia caiu por terra, pois, a reduzida procura e a falta de tempo para obter as devidas autorizações impossibilitavam a organização da viagem. Plano B. Ir à Biblioteca Municipal de Vila do Porto e mergulhar na realidade virtual, através de um filme de 10 minutos realizado na Reserva do Ambrósio. Infelizmente, devido ao protocolo de segurança sanitária, o acesso aos meios audiovisuais estava interdito. Maldito covid-19!


Duas soluções de recurso: https://www.youtube.com/watch?v=nwyPUvckCh0 (“Santa Maria”, Rafa Herrero Massieu, 4:11) e https://vimeo.com/424836507 (“The Mini Mantas of Santa Maria”, Danny Copeland, 5:37)


Os temas marítimos dominam a calçada portuguesa em Vila do Porto.


Jamantas em Santa Maria. Fonte: www.natgeo.pt


5. Três paisagens. Um dos meus maiores prazeres quando venho aos Açores é percorrer a pé um trilho antigo ou uma estrada regional. Enquanto o faço, há a natureza para ser contemplada e dificuldades no caminho para serem ultrapassadas. No final, todo o esforço será recompensado, independentemente dos imprevisíveis humores atmosféricos. A Praia Formosa é uma das raras de areia quase branca, com a água a 24.ºC. Foi aqui que comecei e terminei o meu périplo pedestre mariense. Habituado às temperaturas polares poveiras e desgastado por um ano atípico, nunca me souberam tão bem uns prolongados banhos de mar. Ainda a Sul, mas mais para Leste, situa-se outro lugar fascinante, a Maia, com os vinhedos nas escarpas, o fotogénico farol na Ponta do Castelo e as histórias do tempo da baleação. Mais um dia de deslumbramento e mergulhos. Por fim, na costa Este, a Baía de S. Lourenço, um dos mais extraordinários cenários humanizados e vinhateiros de Portugal, que rivaliza com a Criação Velha, no Pico, e os socalcos, no Douro Superior. Do Miradouro do Espigão temos o quadro completo. Um anfiteatro sobre o mar, onde existem uma pequena praia e umas piscinas naturais. Pela encosta acima, currais de vinhas, pequenos quadrados de pedra, que parecem bordados de basalto. À medida que a altitude aumenta e a encosta se afasta do oceano, os currais elevam-se quase na vertical, como se estivessem embutidos na parede. Quando por lá passei, fui recebido com chuva miudinha e um céu de chumbo, mas o que é belo nunca perde o encantamento. Formosa, Maia e S. Lourenço, três paisagens que valem uma viagem ou um regresso a Santa Maria.

Praia Formosa vista do Miradouro da Macela.

Vinhedos na encosta, Maia.

Baía da S. Lourenço visto do Miradouro do Espigão.

domingo, 29 de setembro de 2019

Tóquio III

O Yamato de cuecas brancas parece ser o rei do Wrestling japonês. Sumida II.

Lutadores de sumo. Sumida III.

Akihabara - bairro de múltiplos interesses: electrónica, anime (filmes de animação), manga (banda desenhada), pachinko (slot machines), jogos de vídeo, cafés maiden (servidos por criadas), brinquedos para crianças e divertimento para adultos. Akihabara I.

Paisagem urbana. Akihabara II.

Paisagem urbana. Akihabara III.

Paisagem urbana. Akihabara IV.

Paisagem urbana. Akihabara V.

Paisagem urbana. Akihabara VI.

Menina vestida de criada a fazer publicidade a um café maiden. Akihabara VII.

Loja de brinquedos, com os super-heróis da animação japonesa. Akihabara VIII.

Uns metros ao lado, um prédio com "brinquedinhos" para adultos. Akihabara IX.

Anime com Lolitas. Akihabara X.

Pachinko (slot machines). Um metralhar constante de metal em acção. Akihabara XI.

Personagem estranho, como muitos que passeiam pelo bairro. Akihabara XII.

No metro de Tóquio. Última viagem.

Doce "Castella" de origem portuguesa (palavra deriva da expressão "claras em castelo"). À esquerda, caixa de pão-de-ló tradicional japonês; à direita, uma nova variante, com mistura de ovos e "matcha" (pó de chá verde). Ambos têm na capa portugueses que passeam em terras nipónicas, vestidos com bombachas (calças largas). As caixas estão guardadas no escritório e fazem parte dos meus "Tesouros Pessoais".

Tóquio II

Paisagem urbana. Shinjuku I.

Paisagem urbana. Shinjuku II.

Tóquio das alturas. 45.º andar. Sede do Governo Metropolitano de Tóquio. Shinjuku III

Tóquio das alturas. 45.º andar. Sede do Governo Metropolitano de Tóquio. Shinjuku IV.

Ao fundo, o Monte Fuji, imagem icónica do Japão. Vulcão activo, com 3.776 metros.
Vi-o, pela primeira vez, meio escondido pelas nuvens, na viagem de Shinkansen Quioto-Tóquio.
Sede do Governo Metropolitano de Tóquio. Shinjuku V

Piano decorado pela artista plástica Yayoi Kusama, conhecida pelo padrão das bolinhas. Sede do Governo Metropolitano de Tóquio. Shinjuku VI.

Templo Budista Senso-ji. Asakusa I

Templo Budista Senso-ji. Asakusa II.

Templo Budista Senso-ji. Asakusa III.

Museu Nacional de Tóquio. Ueno I

Festival de Amizade Paquistão-Japão. Saí da dieta do sushi e matei saudades do caril e das chamuças. Ueno II

Samurai no Festival de Amizade Paquistão-Japão. Ueno III

O colorido paquistanês num carro japonês. Festival de amizade Paquistão-Japão. Ueno IV

Paisagem urbana. Ueno V

Personagem não-identificada. Ueno VI

Museu Hokusai. Dedicado ao mais conhecido artista japonês de Ukyio-e (estampa japonesa). Sumida I

Autor da célebre "Grande Onda de Kanagawa".

"A Grande Onda" num estabelecimento em Osaca.

"A Grande Onda" no comboio Inari-Quioto.

Portugueses usando uma espingarda. Xilogravura de Hokusai.


Tóquio I

Em Tóquio, fiquei alojado num Hotel Cápsula, no elegante e moderno bairro de Chuo. Numa cabine telefónica horizontal, tenho tudo de que necessito para uma noite repousada de sono. Direccionados para trabalhadores que não tinham tempo de ir a casa ou que perdiam as últimas ligações suburbanas, hoje albergam igualmente estrangeiros. Oak Hostel Cabin, Chuo I.

Andar masculino. A minha cápsula 107 é a segunda a contar da direita. 
Oak Hostel Cabin, Chuo II.

À saída dos chuveiros, os macacos de Nagano fazem um pedido aos utilizadores. 
Oak Hostel Cabin, Chuo III.

Rio Sumida. O Oak Hostel Cabin é o segundo edifício do lado esquerdo, antes da ponte. Chuo IV

Restaurante especializado em ramen (macarrão), muito populares no Japão. Chuo V

Árvore de estradas. Chuo VI.

Estátua Hachiko. Homenagem a um cão que se encontrava com o dono na Estação de Shibuya, após o trabalho. O dono morreu, em 1925, mas Hachiko continuou a aparecer no local durante dez anos, até ao fim dos seus dias. Shibuya I.

Cruzamento de Shibuya II.

Bar de Karaoke. Shibuya III.

Tokyo Plaza. Harajuku I.

Garrafões de saké. Santuário Shintoísta Meiji. Harajuku II.

Santuário Shintoísta Meiji. Harajuku III.

Parque Yoyogi. Harajuku IV.

Parque Yoyogi. Harajuku V.

Parque Yoyogi. Harajuku VI.

Publicidade a roupa interior feminina. Takeshita dori. Harajuku VII

Purikura. Fotografia em cabine digital que permite a manipulação de diversos elementos: olhos, rostos, pele, cabelos, fundos, molduras. Harajuku VIII.

A Purikura é muito popular entre os jovens, mas também cativa adultos pantomineiros. Harakuju IX