domingo, 29 de setembro de 2019

Miyajima

A caminho da ilha sagrada Miyajima.

Casal conversa perante o olhar de um veado.

Torii - portal ligado à religião shintoísta que assinala a entrada num santuário.

Santuário shintoísta Itsukushima I.
Como está assente em estacas, com a maré cheia, parece que está a flutuar na água.

Santuário shintoísta Itsukushima II.

Nos jardins do Templo Budista Daisho-in I.

Espaço exterior da sala de oração do Templo Budista Daisho-in II.

1000 estátuas do Buda da Luz Infinita. Templo Budista Daisho-in III.


Templo Budista Daisho-in IV.

Buda a entrar no Nirvana. Templo Budista Daisho-in V.


Rodar o cilindro para pedir a bênção. Templo Budista Daisho-in VI.


500 estátuas dos discípulos de Shaka Nyorai (divindade budista). Templo Budista Daisho-in VII.


Estátuas Jizo - divindade budista que representa um monge em pedra de cabeça rapada e adornada com um bibe vermelho, oferecido pelos pais de crianças que morreram. Acredita-se que, se os filhos morrerem antes dos pais, não são capazes de "encontrar o caminho". Templo Budista Daigan-ji.

Os veados são considerados seres sagrados, mensageiros dos Deuses. Estão habituados à presença humana e são acarinhados pelas populações.






Hiroshima

Primeira viagem de Shinkansen (comboio-bala): Osaca-Hiroshima. 

Museu Memorial da Paz de Hiroshima, do arquitecto Kenzo Tange, Prémio Pritzker 1987.

O museu guarda um conjunto diversificado de documentos, objectos e testemunhos relacionados com a deflagração da primeira bomba atómica, em 6 de Agosto de 1945. Calcula-se que terão morrido cerca de 100 mil pessoas; outras 100 mil ficaram feridas e com mazelas até ao fim das suas vidas. Entre a extrema violência das imagens e o sofrimento que emana dos artefactos, chamaram-me a atenção o silêncio e a concentração das multidões que percorrem as galerias e a grande quantidade de crianças e jovens que acompanha os adultos nas visitas. Percebe-se que há uma mensagem a passar para as futuras gerações.

Monumento de homenagem às crianças, que tem como símbolo Sadako Sasaki (1943-1955), que, por sua vez, se liga ao "origami", a arte tradicional de criar figuras tridimensionais, apenas dobrando uma folha de papel de forma sucessiva e engenhosa. Sadako Sasaki contraiu leucemia aos onze anos, vítima dos efeitos da radiação. No hospital, recebeu a visita de uma amiga que lhe levou um grou de origami e lhe contou a crença segundo a qual quem fizer mil grous verá realizado um desejo. Sadako Sasaki conseguiu fazer 646 antes de morrer. Os seus colegas de escola fizeram os restantes 354 e iniciaram uma campanha para construir um monumento em sua homenagem, que foi concluído em 1958.

Cenotáfio do Parque Memorial da Paz.
Cheguei a Hiroshima na manhã de 7 de Agosto de 2019, um dia após o 74.º aniversário do lançamento da bomba. Havia coroas de flores e tendas nos jardins que se reportavam às cerimónias recentes.

Holograma que reproduz o lançamento da bomba e a devastação consequente I.
Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

Holograma que reproduz o lançamento da bomba e a devastação consequente II.
Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

Ruínas do Salão da Promoção Industrial, um dos poucos edifícios do hipocentro que sobreviveu à destruição total. Hiroshima, 07.08.2019.

Ruínas do Salão da Promoção Industrial, um dos poucos edifícios do hipocentro que sobreviveu à destruição total. Hiroshima, 08.09.1945.
Foto: Stanley Troutman (fotógrafo da marinha norte-americana), Associated Press.

Capa da Revista New Yorker, 31.08.1946.

No interior, apenas a reportagem de John Hersey (1914-1993) sobre o horror que se viveu em Hiroshima, a partir do testemunho de seis sobreviventes. Em 1985, o jornalista publicou uma nova edição (traduzida em Portugal), com um capítulo dedicado aos 40 anos vividos pelas mesmas personagens. Em 1999, a Universidade de Jornalismo de Nova Iorque classificou "Hiroshima" o mais importante trabalho jornalístico do século XX.

"Diário de Hiroshima de um médico japonês", Michihiko Hachiya, publicado em 1955.
Na imagem, edição em castelhano, comprada através da Internet (Amazon, Londres). O livro encontra-se esgotado em Espanha e não está traduzido em Portugal.

De todos os livros que eu li antes de viajar para o Japão, "Diário de Hiroshima", do médico Michihiko Hachiya, foi aquele que mais me marcou. Às 8h15, de 6 de Agosto de 1945, ele estava em casa, apenas vestido com roupas interiores, quando "um poderoso flash de luz" apareceu e desapareceu repentinamente. Por instinto, tentou fugir, mas os escombros e as vigas caíram no chão, bloqueando o caminho. Conseguiu chegar ao jardim e deu-se conta, para sua surpresa, que estava completamente nu. As cuecas e camisa tinham desaparecido. Ferido e a sangrar, fugiu com a esposa para a rua. Aqui, tropeçou na cabeça de um oficial morto, o primeiro de milhares de cadáveres, vítimas de uma força invisível que lhe é desconhecida e inexplicável. Apesar das queimaduras que sofreu, começou, desde o início, a ajudar os sobreviventes. A morte, o sofrimento e o quotidiano precário são constantes ao longo do livro, a par das consequências da "doença da radiação" que não tardam em chegar: sede, vómitos e diarreia. Há também a alegria dos reencontros, de amigos e familiares que se julgavam perdidos para sempre. Talvez não haja felicidade mais pura. É mais do que uma sobrevivência, é o regresso do mundo dos mortos. A humildade em reconhecer que não sabe o que enfrenta, o respeito profundo pelos defuntos, as descrições dos estados de espírito, as reflexões sobre a guerra e a derrota são outros elementos que acrescentam interesse à obra e que são reveladores do elevado humanismo do Dr. Hachiya. Uma curiosidade: inicia todas as entradas com uma referência ao tempo. A mais extensa e poética é a da manhã de 6 de Agosto. Apenas por uma vez a meteorologia deixou de constar: 15 de Agosto, dia da rendição do Japão, anunciada pelo Imperador, através da rádio. Em síntese: o "Diário de Hiroshima" é um poderoso relato dos acontecimentos que se seguiram ao eclodir da bomba até à chegada dos americanos, a 30 de Setembro de 1945.











Osaca

Osaca à noite vista do Edifício Umeda.

Edifício Umeda visto da Estação de Comboio, às 06h30.

Dotombori I - área de restauração e divertimento.

Dotombori II

Dotombori III

Dotombori IV

Dotombori V - As pernas do caranguejo movem-se!

Dotombori VI

Dotombori VII

Dotombori VIII

Clube Manga (banda desenhada) aberto 24H.

Duas japonesas de quimono.

Vitrina de um restaurante.

Caixa "bento" com comida de plástico.

Museu dos Direitos Humanos I: fotos de coreanos que vivem no Japão.

O Japão a olhar para si próprio. O museu aborda a vida de diferentes grupos sociais e étnicos que vivem no país e que foram/são alvo de discriminação: "Burakumim" (casta de profissões impuras), LGBT, Deficientes, Ainu (povo que vive em Hokkaido, ilha do norte), Ryukyuans ou Okinawans (povo que vive num grupo de ilhas no sul), Coreanos (relação histórica problemática), "Hibakusha" (literalmente "pessoas afectadas pela explosão", referente às bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki).


Museu dos Direitos Humanos II: casa do povo Ainu, com língua e costumes próprios.














Notas de uma viagem ao Japão

1. Chegada. Faltava-me a última etapa da longa maratona aérea iniciada no Porto: o voo interno Tóquio–Osaca que me colocaria no ponto inicial do meu itinerário. Assim que se iniciou o embarque, entrei no avião da Air Nippon Airways e sentei-me no lugar. Por ser repetitivo, não costumo prestar muita atenção às normas de segurança que são anunciadas pelas hospedeiras antes da descolagem. Faço o indispensável (ponho o cinto e coloco o telemóvel em modo voo) e desligo-me na fase dos coletes e das máscaras de oxigénio. Desta vez, porém, estive atento. À minha frente, no monitor individual, surgiu um pequeno filme em que as instruções eram apresentadas de forma divertida por actores do teatro Kabuki e por senhoras de quimono que associamos às estampas japonesas. Sentia-me num mundo flutuante e em movimento lento devido ao peso dos sonos trocados e ao cansaço das horas de voo, mas já estava a ser capturado por esse fascínio que o Japão exerce em muitos que o visitam ou sonham visitá-lo: uma extraordinária capacidade de se reinventar, de inovar sem perder a identidade. A bordo de um avião que cheirava a novo, a tradição mantinha-se viva ao serviço da modernidade.

Voo Munique-Tóquio. Aproximação ao aeroporto de Haneda.

Voo Tóquio-Osaca: instruções de segurança I.

Voo Tóquio-Osaca: instruções de segurança II.

2. Perdido no espaço e no tempo. Após dois séculos de isolamento, em 1853, os EUA forçaram a abertura do Japão ao comércio internacional. Este acontecimento desencadeou o processo de modernização (período denominado “Restauração Meiji”), que conduziu o país, em poucas décadas, de Estado feudal a potência política, económica e militar. No século XX, uma nova demonstração de vitalidade: violentamente destruído pelo terramoto de Kanto e pela guerra, chegou ao final do século no topo da economia mundial e na vanguarda tecnológica. Apesar das mudanças ou derrocadas que a História Contemporânea lhe trouxe, manteve-se um equilíbrio entre as tradições do passado e as transformações induzidas pela ciência e pelas técnicas. Chegados ao mundo global em que vivemos, em que tudo parece cada vez mais igual, o Japão marca a diferença ao conciliar o progresso com uma cultura original em vários domínios do quotidiano: na cozinha, nos rituais do chá, no teatro, nas artes visuais, na arquitectura. Estou a passear descontraído numa rua quando, de repente, deparo-me com um robô vestido com uma fatiota tradicional; ou saio de um templo de madeira sem um único prego para admirar as linhas de um edifício que levaram ao prémio Pritzker. O encontro entre o passado e o presente cruza-se amiúde, mas, deixa-me, às vezes, um pouco perdido. Tenho consciência que não pertenço a esta cultura milenar, por me faltarem muitas chaves de entendimento.

De cima para baixo, da esquerda para a direita: Teatro Kabuki / Robôtica; 
Ukiyo-e (Estampa) / vocaloid Hatsume Miku; e Maneki Neko (Gato da Sorte) / Hello Kitty.
Cartaz "Welcome to Tokyo, old meets new", Sede do Governo Metropolitano de Tóquio.

O alienígena sou eu. Sentimento de quem aterra noutro mundo.
Bairro de Akihabara, Tóquio.

3. Silêncio na multidão. Quem circula pelo Japão não deixará de notar o elevado grau de organização social, a extrema limpeza dos espaços públicos e a eficiência dos transportes. Tome-se como exemplo uma viagem de Shinkansen (comboio-bala) Quioto-Tóquio, seguido de um trajecto de metro da Estação Central até Kayabacho, no bairro de Chuo, onde fiquei alojado. Estou há vários dias no Japão e tenho o processo assimilado. Chego à Estação de Quioto quinze minutos antes da partida, passo pelo controlo dos portadores do Japan Rail Pass, dirijo-me para a linha de onde partirá o Shinkansen Hiraki, posiciono-me na fila destinada à carruagem 15 e aguardo. Sei que ele há-de parar de acordo com a indicação que se encontra no chão. Dois minutos antes da partida, tal como previsto, o comboio dá entrada na plataforma, sob supervisão de três funcionários dos caminhos de ferro vestidos a rigor. As pessoas entram ordeiramente e sentam-se nos seus lugares. Na plataforma, os funcionários comunicam à distância, através de um ritual sinalético, certificando-se que o embarque foi concluído em segurança. O comboio sai de Quioto às 15h32 e chega a Tóquio às 18H10. Precisão cirúrgica. Nem um minuto a mais nem um minuto a menos. Duas horas e trinta e oito minutos para percorrer 513.6 km, com meia dúzia de paragens pelo meio. Só de comparar com a eficiência da CP fico com vontade de apanhar uma bebedeira de saké! Na capital, tenho um novo desafio pela frente: mergulhar na cidade subterrânea para chegar ao meu destino. No início, fico assustado ao olhar para a complexa rede de metro: uma encruzilhada de linhas públicas e privadas que mais parece um labirinto visual. Há que manter a calma perante o desnorte. Tenho de escolher a melhor rota e seguir as informações dos painéis luminosos. De resto, já conheço as regras básicas para não ser abalroado no formigueiro humano: manter um ritmo ligeiro, caminhar pela esquerda e encostar-me nas passadeiras rolantes. Antes de continuar, vou à casa de banho. A apresentação, como sempre, é irrepreensível. No final de um dia de trabalho, as carruagens vão cheias de gente que dormita, rostos inexpressivos ou olhares amarrados à tecnologia. Ninguém fala. Estão todos com auriculares e não há barulhos que incomodem os passageiros. A vida em sociedade atinge aqui um patamar de qualidade que é inatingível na nossa terra. Além da organização, da limpeza e da eficiência, também se estima o silêncio. 

Como organizar uma fila num espaço reduzido.
Estação ShinOsaka (de onde partem os Shinkansen), Osaca.

Rede do metro de Tóquio.

Além de eficiente (a água para lavar as mãos irá para o autoclismo), no lado direito de quem se senta, há uns botões estranhos para o "namban-jin" ("bárbaros do sul", termo utilizado para qualificar os portugueses): uns servem para enviar uns esguichos de água para os orifícios corporais, enquanto outros abafam ruídos inconvenientes através de música ambiente. Sanita Panasonic, uma maravilha tecnológica.

Nos transportes, há muita gente amarrada aos telemóveis, mas ninguém incomoda o vizinho.
Comboio suburbano Nara-Quioto.

4. Lost in Translation. O civismo e a cortesia que se observam na sociedade japonesa, e que se estendem aos estrangeiros que deambulam pelo país, decorrem da ideia de que o indivíduo não é mais importante do que o grupo. Num país isolado pelo mar e fragmentado em mais de seis mil ilhas, sujeito a várias calamidades naturais e com uma reduzida área habitável, os japoneses interiorizaram, ao longo dos séculos, o respeito pela vida em comunidade, por não encontrarem fora dela grandes hipóteses de sobrevivência. Um simpático empresário de Hokkaido (ilha ao Norte do arquipélago), que me acompanhou numa caminhada pelo Parque Ueno, em Tóquio, confirmou-me esta informação-síntese, resultante de leituras que precederam a viagem e, na mesma frase, assinalou outra particularidade que é constatada no dia a dia: “O povo japonês é muito gentil, mas lamentavelmente fala mal inglês”. Os jovens contornam o problema recorrendo a umas aplicações móveis que traduzem no imediato uma abordagem numa língua bárbara. No entanto, quando a tecnologia está ausente, muitas vezes, a boa vontade do transeunte não é suficiente para responder ao pedido do visitante, por incapacidade mútua de compreensão. Uma pequena história para ilustrar esta observação. Em três dias, fui calcado duas vezes no mesmo pé (acidentes que acontecem a quem anda de sandálias no meio de multidões…) Precisava de um anti-inflamatório para atacar o inchaço e as dores. Prevendo as dificuldades de comunicação que iria encontrar, pedi ao recepcionista do hostel que, por escrito, explicasse o acidente e fizesse o meu pedido. Na manhã seguinte, lá fui eu, com a obra de arte na mão, confiante que a coisa iria ser resolvida facilmente. Chegado à farmácia, entreguei o papel à menina que me atendeu e esperei que ela me trouxesse o remédio. Contudo, tal não aconteceu. Depois da leitura, fez uns comentários sobre o texto e colocou um par de questões no ar. O efeito prático que pretendia com a missiva morreu ali. Em vez de acção, deu-me um estudo hermenêutico em japonês. Pedi socorro e apareceu uma colega sorridente licenciada pela Tarzan British School. Depois de conferenciarem entre si, o que se seguiu foi um diálogo absurdo, em que cada uma queria convencer-me a tomar/aplicar um medicamento diferente. Fiquei uns instantes anestesiado a assistir ao interessantíssimo debate entre o partido do comprimido e o partido do emplastro. Estando num impasse a poucos dias do regresso a casa, preferi abster-me e continuar com o calvário, o que limitou as minhas andanças por Tóquio. Não deixa de ser estranho e surpreendente: uma sociedade de perfil futurista com tantas dificuldades em expressar-se em inglês.
O filme é, entre outras coisas, uma excelente incursão na vida diurna e nocturna de Tóquio.
"Lost in Translation", realizado por Sofia Coppola, EUA, 2003, com Bill Murray e Scarlett Johansson.

Pé esquerdo do "namban-jin" num estado miserável.
Interior da cápsula 107, Oak Hostel Cabin, bairro de Chuo, Tóquio.

 Missiva japonesa a explicar o que aconteceu ao meu pé e a pedir um anti-inflamatório. Sendo a caligrafia uma arte (denominada "Shodo"), este documento foi classificado "Tesouro Pessoal".

5. Portugal e o Japão, encontros e desencontros. Além da digressão pela tradição e modernidade, também parti para o Japão em busca da nossa História. Fui à procura do que ficou dessa presença longínqua e que era compatível de ser visitado com o trajeto delineado. Na preparação da viagem, foram excluídas as ilhas Kyushu (onde se localiza Nagasaki, fundada pelos portugueses em 1570) e Tanegashima (onde se deu o primeiro encontro em 1543), devido à falta de tempo e à distância em relação ao eixo Kansai–Kanto (distritos centrais do país). Depois, caiu Tokushima, assim que soube que a Casa-Museu Wenceslau de Moraes estava encerrada. Restaram o Museu da Cultura Namban de Osaca; o Templo Shunko-in, em Quioto; e o Museu Nacional de Tóquio. Todos se revelaram uma desilusão, por diferentes razões que passo a explicar. O primeiro alberga uma colecção de biombos que pertence a um acervo mais amplo de arte de influência portuguesa no Japão. Sabia, de antemão, que não iria ser fácil visitá-lo, porque este só se encontra aberto ao público em Maio e Novembro. Pensei que, se conseguisse entrar em contacto directo com a instituição, referisse a minha origem geográfica e explicasse os motivos do meu interesse, talvez tivesse sorte. Pedi a uma menina do Centro de Informações da Estação de Osaca que fizesse o pedido em meu nome, mas, apesar do seu esforço ao telefone, não tive sucesso. Desfez-se em mil e uma desculpas, como se fosse responsável pela intransigência alheia. Em Quioto, houve uma nova recusa com contornos distintos. O Templo Budista Zen Shunko-in guarda um sino de bronze que pertenceu à Igreja de Nª Sª da Assunção (destruída com as perseguições aos cristãos) e o único documento trocado entre um representante da Coroa, o Vice-Rei da Índia D. Duarte de Menezes, e um dirigente japonês, Toyotomi Hideyoshi. Como não encontrei ninguém nos jardins exteriores, avancei até à porta de entrada, retirei o calçado e entrei no átrio com uns cautelosos “hellos”... De repente, irrompeu a estrela da companhia, o Reverendo Takafumi Kawakami, stressado e maldisposto, a questionar o que estava ali a fazer. Apresentei-me, expus a razão da minha súbita aparição e perguntei-lhe se era possível ver o sino e a carta. Recusou o meu pedido de forma brusca, afirmando que o local estava encerrado para visitas e que apenas havia marcações para sessões de meditação. Voltei a insistir e voltei a levar um grosseiro “não”. Caiu o mito da delicadeza dos monges budistas. É incompreensível como um indivíduo que dá palestras pelo mundo, ensina filosofia zen e vende meditação e chá a estrangeiros fica perturbado perante um visitante que apenas desejava contemplar uns vestígios dos seus antepassados. O facto de ter aparecido sem avisar não justifica que as boas maneiras tenham ficado atrofiadas no seu cérebro. Foi a única excepção à proverbial cortesia japonesa. Dias mais tarde, estive no Museu Nacional de Tóquio, onde esperava ver finalmente arte Namban. Vi vários tesouros nacionais, de diferentes épocas e feitios, percorri todas as salas do edifício mas, artefactos da presença portuguesa, nada. Inquiri no balcão de informação. O museu exibe apenas cerca de 3 mil dos 117 mil objectos que possui. Explicaram-me que muitas peças estão em deficientes condições de conservação e somente algumas são exibidas em exposições temporárias no período natalício. Paciência. Portugal acabou por se encontrar comigo, quase sempre, de modo fugidio e inesperado: um mosquete no Templo Ryogen-ji, um galão e um pastel de nata na Pastelaria Castella do Paulo, em Quioto; uma t-shirt do Ronaldo no metro, uns CDs da Mísia e da Amália na Tower Records, em Tóquio. Pouco para o que tinha planeado. A meio da terceira semana de Agosto, observava um dos pares de biombos no Museu Nacional de Arte Antiga quando apareceu um jovem asiático que me pediu para tirar-lhe uma fotografia em frente ao Kurofune, o barco negro que fazia o trajecto anual entre Goa, Macau e Nagasaki. Perguntei-lhe a origem. Disse-me que era de Nagasaki, que aquele era o seu último dia em Portugal e que estava muito contente por ali estar. Foram os infortúnios que me conduziram àquele lugar e àquele encontro, diante uns exóticos narigudos que estavam a desembarcar na terra dele. A minha viagem ao Japão terminou em Lisboa com um acaso feliz.

Galão e pastel de nata, Pastelaria Castella do Paulo, Quioto.

Mísia e Amália, Tower Records, Tóquio.

Biombo Namban pintado por Kano Naizen (1603-1610?), com o "Kurofune" (barco negro) 
em primeiro plano. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

6. Agradecimento. Estou grato a vários historiadores, escritores e diplomatas que, através dos seus livros e artigos, me ajudaram a compreender o Japão e a combater a minha ignorância: Maria Helena Mendes Pinto, João Paulo Oliveira e Costa, Pedro Dias, Alexandra Curvelo, Wenceslau de Moraes, Armando Martins Janeira, Camilo Martins Oliveira, Porfírio Silva, Jorge Kol de Carvalho, sem esquecer as introduções do Embaixador José Freitas Ferraz. Muitos ensaios remetem para autores clássicos dos séculos XVI e XVII, pioneiros desse encontro entre portugueses e japoneses, nomeadamente, João Rodrigues e Luís Fróis. Todos passaram pelo Japão em diferentes épocas e períodos de tempo. Deles recebi informações, conhecimentos, vivências, olhares atentos que foram muito úteis na preparação da viagem. Alguns ainda me deram de suplemento momentos de fruição pura de leitura. Quando Martins Janeira relata que adormecia os filhos no Japão com canções de embalar transmontanas ou que se fez acompanhar pelo mundo, até ao fim dos seus dias, por três pedras da Serra do Reboredo, não posso deixar de confessar que a ternura deste pai e o seu apego à terra natal não me deixaram indiferente. Se há disparates nas minhas notas, eles são da minha exclusiva responsabilidade. Talvez não tenham sido muito graves, por terem sido escritas com poucas palavras.

"Relance da Alma Japonesa", um dos clássicos de Wenceslau de Moraes.

"O Impacto Português sobre a Civilização Japonesa" e "Figuras de Silêncio" são duas obras de Armando Martins Janeira que ajudam a compreender a herança portuguesa no Japão.

Armando Martins Janeira (Torre de Moncorvo, 1914 - Cascais,1988), Embaixador de Portugal no Japão, junto da estátua de Wenceslau de Moraes (1854, Lisboa -1929, Tokushima). Kobe, 1964.
Fonte: armandomartinsjaneira.net