domingo, 3 de setembro de 2023

Kutaisi, Cólquida

 

De regresso à Geórgia, breve passagem por Kutaisi, segunda maior cidade do país. À entrada do mercado, relevo soviético Kolkheti (1980-85), evocação do Reino da Cólquida, para onde partiram, de acordo com a mitologia grega, Jasão e os Argonautas em busca do Tosão de Ouro.

Detalhe do relevo soviético Kolkheti.

Churchkhela, doce feito à base de frutos secos e mosto de uva, em forma de salsicha. Interior do mercado de Kutaisi I.


Interior do mercado de Kutaisi II.

Interior do mercado de Kutaisi III.

Interior do mercado de Kutaisi IV.

No interior de uma "marshrutka" (carrinha de transporte com destino fixo) a caminho de Tskaltubo, o último destino georgiano.

Sevan

A Casa dos Escritores e a Cantina do Lago Sevan

Em 1932, os arquitetos Gevorg Kochar (1901-1973) e Mikael Mazmanyan (1899-1971) projetaram a Casa dos Escritores de Sevan, um prédio de quatro andares, com varandas curvas e uma torre envidraçada com vista sobre o lago. Seria construída numa ilha, diante do Mosteiro Sevanavank (séc. IX), com o objetivo de servir de inspiração à criação artística.

Em 1935, ano em que o retiro para a União dos Escritores Socialistas da Arménia abriu, o lago estava a mudar de forma, devido ao desvio de água para irrigação e produção elétrica. Em vinte anos, com a redução de 40% do seu volume, a ilha onde se localizava a casa daria lugar a uma península. Em 1937, durante a repressão estalinista, Kochar e Mazmanyan foram acusados de sabotagem contra a União Soviética e deportados para Norilsk, cidade siberiana no Círculo Polar Ártico, onde permaneceram 15 anos num gulag. Os dois foram reabilitados após a morte de Estaline.

 

Em 1962, Kochar foi novamente contratado para concluir o trabalho que tinha iniciado 30 anos antes. No ano seguinte, ao lado da Casa dos Escritores, nasceu a Cantina, uma estrutura oval assente num pilar de betão, erguida numa colina íngreme e rochosa. A projeção em direção ao lago, o enquadramento paisagístico e a varanda panorâmica fizeram deste edifício de vanguarda o mais emblemático do modernismo soviético.

Fonte das fotografias: Projeto de Recuperação da Fundação Getty. Pode ser consultado aqui: https://www.getty.edu/foundation/pdfs/kim/sevan_writers_resort_armenia_cmp.pdf

Capa do livro: Soviet Modernism 1955-1991/Unknow History (Park Books e Centro de Arquitetura de Viena, 2012).

Miradouro de Sevan. Plataforma modernista soviética situada à entrada da cidade, 1978.

Mosteiro Sevanavank. Complexo monástico localizado na Península de Sevan (ilha até meados dos anos 50), composto por duas igrejas cruciformes semelhantes. Foi fundado em 874 e cessou a sua atividade em 1930, quando o último monge partiu.

Khachkares no pátio do mosteiro. Estelas ao ar livre esculpidas em pedra, decoradas com uma cruz no meio, acompanhada de motivos vegetativo-geométricos, esculturas de santos e animais. Embora possa assumir diversas finalidades, a mais comum é ser invocada como memorial.


Cantina e Casa dos Escritores em 2023.

Passaram 60 anos. Apesar do deficiente estado de conservação, a Cantina mantém o seu ar futurista!

Interior da cantina.

Em estado de contemplação.

Lago Sevan visto da varanda. Num país sem acesso ao mar, o maior lago do Cáucaso é considerado um tesouro nacional. Situa-se a 1900m de altitude.

Vista da Casa dos Escritores para a Cantina.

 

Nos dois edifícios estão expostas discretamente algumas fotografias que retratam a sua história. Aquele que foi outrora um retiro para escritores e artistas, que acolheu intelectuais como Ossip Mandelstam, Vassili Grossman, Jean-Paul Satre e Simone de Beauvoir (os dois últimos encontram-se ao centro, na foto inferior esquerda), é um hotel decrépito, que precisa de obras de reabilitação, para não se tornar mais um sonho futurista com final triste. 

Nadejda Mandelstam relata em “Contra Toda a Esperança” (Imprensa Universitária de Lisboa, 2023) que Sevan foi o local de redescoberta da voz poética do marido e de denúncia da ditadura estalinista. Em 1934, Ossip Mandelstam publicou um poema satírico de Estaline que o levou à prisão e, quatro anos mais tarde, à morte, num campo de trabalho próximo de Vladisvostok. A sua obra literária sobreviveu devido ao esforço de Nadejda, que decorou os seus poemas para entregá-los à posteridade. “Contra Toda a Esperança” é um retrato dos últimos 4 anos de vida de Ossip Mandelstam e uma descrição devastadora dos anos de terror estalinista. Hannah Arendt considerou este livro o documento do século contra as ditaduras. 

Pilar da Cantina.

O designer gráfico Nvard Yerkanian pinta edifícios soviéticos arménios ameaçados, para alertar em relação ao seu estado de degradação: https://www.archipanic.com/armenian-soviet-architecture-nvard-yerkanian/

Em memória de António Loja Neves (1953-2018), jornalista, escritor e cinéfilo, com quem tive o prazer de trabalhar e conviver no "Porto 2001" e que continuou a ensinar-me depois de ter partido.

Khor Virap

 

A estrada termina aqui. O Mosteiro Khor Virap localiza-se numa zona sensível: a 100 metros da fronteira com a Turquia (fechada e controlada por tropas russas) e a poucos quilómetros do Irão e de um enclave azeri. Insere-se numa paisagem agrícola e tem como pano de fundo o Monte Ararat (5.137m).


A Igreja do Mosteiro Khor Virap.

O nome Khor Virap deriva de “Masmorra Profunda” onde esteve cativo Grigor Lusarovich (257-331), durante 13 anos, por praticar a religião cristã. Um dia, o rei Tiridates III adoeceu, foi convencido a libertar o prisioneiro através de um sonho e o monarca curou-se. A Arménia tornou-se o primeiro país cristão do Mundo, em 301, e Gregório, o Iluminador, o santo padroeiro. O mosteiro fortificado foi construído no século XVII, edificado sobre uma antiga capela do século VII. A montanha sagrada e o poço onde S. Gregório esteve preso fazem deste local um destino de peregrinação para os cristãos arménios.


Perto há um cemitério onde estão sepultados soldados arménios que faleceram nos conflitos com o Azerbaijão.

Khor Virap e duplo Ararat em grande plano.

"Descida de Noé desde o Ararat", Ivan Aivazovsky (pintor russo-arménio, 1817-1900), Galeria Nacional da Arménia.

"Descida do Ararat pela garganta abaixo", por Pavel, em Yerevan.

Pelas ruas de Yerevan


Arquiteturas do passado e presente I.

Arquiteturas do passado e presente II.

Arquiteturas do passado e presente III.

Arquiteturas do passado e presente IV.

Hard Club de Yerevan, instalado numa estrutura estranha na Rua Pushkin, entalada entre um bloco residencial e um revelo soviético.


Catedral S. Gregório, o Iluminador. A Arménia foi o primeiro país do mundo a adotar o cristianismo como religião oficial, no ano 301. Inaugurada em 2001, é o maior edifício religioso do país. Interior cru e de traço antigo.

Enquanto não aparecem fregueses, Mercado Vernissage.

Fábrica de Aguardente Ararat. Fundada em 1887. Na fábrica pode-se acompanhar as fases de produção, apreciar diferentes tipos de aguardentes e visitar um museu. https://en.araratbrandy.com/museum/

A afirmação vale um tratado. Winston Churchill foi introduzido à aguardente arménia por Estaline, na Conferência de Yalta, em 1945. Segundo a lenda, o líder soviético enviava todos os meses garrafas para o primeiro-ministro britânico. No final da vida, afirmou que tinha bebido aguardente suficiente para encher três carruagens de comboio! Morreu com 90 anos! A aguardente favorita de Churchill era esta… https://drinkrituals.com/ararat-dvin


Tabbouleh, salada de bulgur (influência da culinária do Médio Oriente), acompanhada por uma cerveja Erebuni (nome antigo de Yerevan).


Bar-Galeria Mirzoyan. Situado num pátio e casa históricos, funciona como galeria de fotografia, biblioteca e café. O espaço foi idealizado pela fotógrafa Karen Mirzoyan, para disponibilizar a sua coleção de livros de fotografia. 

Bar-Galeria Mirzoyan II.

A Mesquita Azul é um refúgio tranquilo da azáfama da cidade. As paredes estão decoradas com belos azulejos e o edifício está rodeado por jardins bem cuidados. Foi construída no século XVIII, quando a cidade estava sob domínio persa. No momento, é o único espaço religioso muçulmano ativo em Yerevan. Quando a Arménia foi inserida na URSS (1922), a mesquita foi fechada pelos soviéticos. Após a independência (1991), foi reaberta e restaurada com o patrocínio do Irão, que a utiliza como espaço cultural. Em troca, o Irão permitiu que a Arménia restaurasse edifícios religiosos no seu território (Jolfa, arredores de Isfahan, onde se concentra a comunidade arménia do Irão).

Interior da Mesquita Azul.

O Kond é o único bairro que sobreviveu à moderna Yerevan projetada por Tamanian, onde se podem ver vestígios da antiga urbe persa e otomana, composta por um labirinto de ruelas estreitas e sinuosas, becos e casas de barro e pedra.


Café em Kond I.

Café em Kond II.

Café em Kond III.


Museu Sergei Parajanov (1924-1990). Foi um realizador, argumentista e artista plástico arménio-soviético. Numa época em que as autoridades desconfiavam da arte que fugia dos cânones realistas, o estilo cinematográfico singular combinado com a vida privada controversa levaram-no à prisão e à proibição dos seus filmes. O espaço é reflexo da criatividade do autor, com instalações, colagens, assemblages, desenhos, bonecos e chapéus. O clássico “A Cor das Romãs” (1969) pode ser visto no museu. 


Salão de entrada. O Museu Parajanov está classificado como "Tesouro Cultural Europeu de Cinema", tal como a Casa dos irmãos Lumière (Lyon, França), o Centro Memorial Eisenstein (Moscovo, Rússia), o Centro Bergman (Ilha de Faro, Suécia), o Mundo de Tonino Guerra (Pennabilli, Itália) ou as Escadas Potemkin (Odessa, Ucrânia).

Parajanov com Tarkovsky (à direita), em Moscovo, 1981. Pouco antes de morrer, esteve no Porto, numa edição do Fantasporto.

Sergei Parajanov, em "Assinatura para a Eternidade", por Samuel Piloyan.