domingo, 3 de setembro de 2023

Yerevan, a primeira cidade soviética

 

Imagem aérea de Yerevan. Ao fundo, Monte Ararat. Fonte: http://www.alexandertamanian.com/

Yerevan é mais antiga do que Roma, é a 12.ª capital da Arménia e foi a primeira cidade soviética. Em 1924, o arquiteto Alexander Tamanian (1878-1936) iniciou o seu plano de reconstrução urbana. Nasceu uma cidade circular, com a Praça da República ao centro e uma rede de avenidas retilíneas em seu redor. Os principais edifícios foram construídos em pedra vulcânica de tons rosa, com enormes arcos nas fachadas, inspirados na arquitetura medieval arménia. Tamanian é inseparável de Yerevan tal como Gaudi de Barcelona ou Niemeyer de Brasília.

Cascate. Enorme escadaria com vários terraços e obras de arte (interior e exterior), que pertencem ao Centro de Artes Cafesjian. Obra-prima da arquitetura soviética projetada por Tamanian, construída, após a sua morte, entre 1971 e 2000.

Cascate II

Cascate III

Cascate IV

Cascate V

Cascate VI

Cascate VII

“No monte fronteiro a Erevan ergue-se um monumento a Stalin. O gigantesco marechal de bronze avista-se de todos os lados. Se um astronauta vindo de um longínquo planeta visse este gigante eráceo, elevando-se por cima da capital arménia, perceberia de imediato que grande e terrível potentado o monumento celebra. (...) Ergue-se dele uma combinação estranha, aflitiva: aquela expressão de força que só um deus pode possuir, de tão enorme que é; e também uma manifestação do rude poder terreno – de soldadesca, de burocracia.”

Vassili Grossman, Bem Hajam! – Apontamentos de Viagem à Arménia, p. 25-26, D. Quixote. Fonte da foto: www.wikipedia.pt

Percebe-se a razão por que a obra literária de Grossman foi censurada na ex-URSS. Em 1962, quando a estátua foi retirada, Estaline, que tinha morrido em 1953, continuou a fazer vítimas. Durante o processo de remoção morreram duas pessoas.

Mãe Arménia, Parque Vitória. Construída em 1967, substituiu a Estátua de Estaline, que tinha sido removida cinco anos antes. No interior do pedestal em forma de basílica medieval, há um museu militar. Inicialmente dedicado à 2.ª GM, o espaço foi adaptado e reintegrado na nova realidade da república independente. Hoje, uma parte da exposição centra-se no conflito de Nagorno-Karabakh (território de população arménia integrado no Azerbaijão).

A roda gigante, um clássico dos parques soviéticos e ocidentais. No parque há uma salada russa de diversões: Órbita Soviética, Piratas das Caraíbas, Pokémons nipónicos, comboios fantasmas, carrinhos de choque, comboios fantasma e... um Rocky Balboa! A roda e o mundo dão muitas voltas. 


Café Aragil abandonado, Parque Vitória.

Memorial do 50.º aniversário da Arménia Soviética.

Casa de Xadrez Tigran Petrosian. Na Arménia, os alunos têm aulas de xadrez obrigatórias a partir dos 6 anos de idade (único país do mundo em que o xadrez desempenha um papel importante na educação). Construída em 1970, presta homenagem a um antigo campeão do mundo arménio-soviético (1963 e 1966). 

Interior da Casa de Xadrez Tigran Petrosian. Quando por lá passei, disputava-se um torneio internacional. Um abraço ao Pedro Ventura, pela lembrança da sua paixão pelo jogo.

Mercado GUM, um clássico soviético.

Interior GUM.

Cinema Rossiya. Construído entre 1968-75, era o maior cinema da Arménia, com capacidade para 2500 espetadores. As suas formas lembram os dois picos do Ararat. Após o fim da URSS, o cinema fechou e o edifício é, na atualidade, um centro comercial.

Um bloco de apartamentos em frente ao Cinema Rossiya.

Cinema Moscovo, construído em meados da década de 1930.

Átrio principal do Cinema Moscovo.

Metro Praça da República (Hanrapetutian Hraparak), fonte brutalista em forma de flor.

Metro Yeritasardakan.

Matenadaran (Museu dos Manuscritos). A Arménia tem alfabeto próprio, composto por 39 letras, criado no século V, por Mesrop Mashots. Por exemplo, a frase “Yerevan á a capital da Arménia” escreve-se Երևանը Հայաստանի մայրաքաղաքն է։ O Matenadaran é a referência cultural do país.

Todas as capitais têm uma rua, praça ou avenida onde as grandes marcas internacionais assentam arraiais. Em Yerevan, a Avenida do Norte, que liga a Ópera à Praça da República, é o local de eleição da capital, onde, além dos produtos de consumo, passeiam madames e geórgios arménios.

Um Lada estacionado na Praça da República, com um pinheiro ambientador pendurado no retrovisor, decorado com a bandeira dos Estados Unidos.

Praça da República II.

Praça da República III.

Complexo cultural e desportivo Karen Demirchyan, construído entre 1976-84. Design único, parece um pássaro a abrir as asas. As estruturas de acesso estão abandonadas, o edifício central está ativo.

Complexo Memorial do Genocídio Arménio, Tsitsernakaberd, construído em 1966-1967. O Museu é dedicado ao genocídio arménio, realizado pelos turcos, entre 1915-23, em que foram assassinados, mortos à fome, deportados ou levados para campos de trabalho cerca de 1.5 milhão de pessoas.

Genocide Museum | The Armenian Genocide Museum-institute (genocide-museum.am)

Devido ao genocídio, os arménios estão espalhados por todo o mundo. Enquanto a população do país é pouco mais de 3 milhões, há mais de 8 milhões de pessoas de origem arménia que vivem no estrangeiro, principalmente, na Rússia, Estados Unidos e França. Alguns descendentes são bastante conhecidos, como o cantor Charles Aznavour ou as manas socialite Kardarshian. Este blogue esteve em vários bairros arménios: na cidade velha de Jerusalém (Israel), em Jolfa, arredores de Isfahan (Irão) e em Nicósia (Chipre). Em Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian é a referência maior da diáspora arménia em Portugal.

O monumento é composto por uma estela de 44 metros, o símbolo do renascimento nacional, e por doze lajes em círculo, que representam as províncias perdidas para a Turquia. No meio, a chama eterna colocada a 1,5 metros de profundidade presta homenagem às vítimas. Modelo soviético clássico: fogo numa cela de contemplação; geometria pesada para esmagar. Ao fundo, a presença do Monte Ararat, onde, de acordo com a tradição bíblica, a Arca de Noé terá ancorado após o dilúvio, é a lembrança permanente da ausência de um território. Na Arménia, o sofrimento foi transformado em identidade.

Interior do Tsitsernakaberd I.

Interior do Tsitsernakaberd II.

Interior do Tsitsernakaberd III. Além do genocídio, houve destruição patrimonial, com o objetivo de apagar a herança arménia do território oriental da Turquia.

Interior do Tsitsernakaberd IV. Milhares de órfãos arménios.

Interior do Tsitsernakaberd V. O genocídio arménio foi o primeiro do século XX. Outros se seguiram.

Estação de camionagem Kilikia.

Não visitei, mas fica o registo para os eventuais interessados. Em Yerevan, tal como noutras capitais de leste, a memória do comunismo ou dos tempos da ex-URSS transformou-se numa indústria que se converteu ao capitalismo. Por 4.000 DRAM (cerca de 9,5€), o visitante tem acesso a uma parcela do quotidiano pré-1991, através de um conjunto de objetos que foram reunidos no Clube Soviético, uma espécie de revisitação nostálgica do filme “Goodbye, Lenin!” em versão museológica made in Armenia. Para além da decoração retro, há diversas atividades para saudosistas e curiosos da vida soviética, desde a compra do excitante perfume Troynoy até uma inesquecível passagem de ano!

Espreitar aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EXx9SlAKcIs